O tempo da arte

kazuo1_fotor

Kazuo Ohno nasceu 27/10/1906 e morreu em 01/06/2010, dançarino e coreógrafo japonês é considerado mestre do teatro butô. Esteve no Brasil em 1986, 1992 e 1997. Sua arte sacudiu a dança contemporânea japonesa nos anos 60. Kazuo recebeu importante influência do dançarino expressionista alemão Harald Kreutzberg (1902-68). Outro fato significativo na vida de Kazuo Ohno foi sua paixão pela dançarina Antonia Mercé y Luque conhecida como La Argentina, que ele assistiu pela primeira vez no Teatro Imperial de Tóquio em 1929, e jamais a esqueceu.

“Durante os cinquenta anos que se passaram, essa visão muitas vezes me dominou. Mas pouco importa quantas vez me aconteceu de chamá-la ou de implorar; não se desvendou mais para mim, se bem que entranhada no mais profundo da minha alma.”

Portanto mais de cinquenta anos depois, o dançarino estava com 71 anos, durante uma exposição de um pintor japonês, diante de uma pintura geométrica, Kazuo Ohno começa a dar forma ao espetáculo “Admirando La Argentina” (fotos), um solo, que conquistou a Europa em 1980, no festival de Nancy, França.

A obra de Kazuo Ohno localiza-se naquele ponto único onde a arte parece negar-se a si própria. Um lugar onde poucos artistas se arriscam. Existe aí uma vontade de tocar o mistério, o obscuro, conhecer a morte em vida. O abismo precisa ser explorado até a sua desmedida. Sua dança não é dança. O que ele expressa é a própria vida/morte em movimento, em silêncio, em pausa, sem ar, sem olhar.

Neste lugar onde poucos habitam estão Jonh Cage e seu som do silêncio, que portanto não é música; Karlheinz Stockhausen com suas duas composições Licht e Klang, uma com vinte e nove horas de música e a outra com sons referentes aos sete dias da semana e da mesma forma não são música como a conhecemos. Igualmente neste campo da ausência está James Joyce e seu Finnegans Wake, ou mesmo Ulisses, textos que não são literatura. Não é diferente o desejo de Kazimir Malevich com sua obra Branco sobre Branco, uma pintura que não é pintura. Como também o Grande Vidro de Marcel Duchamp não é pintura, tampouco escultura.

Estas grandes obras filhas da ausência tentam fundir céu e inferno e encaram a vida e a morte como o mesmo elemento. É aqui que encontramos a performance de Kazuo Ohno buscando tocar a máxima escuridão com a mão direita enquanto retira o pé esquerdo da claridade absoluta.

 

kazuo5_fotorkazuo4_fotorkazuo3_fotorkazuo2_b04_fotor

A ciência e a verdade

 

ciencias_fotor

O caráter científico  do mundo contemporâneo tem uma sólida base de apoio em René Descartes 1596/1650, filósofo, físico e matemático francês, que com seu nome grava a ferro e fogo o conceito popular “cartesiano” em toda a sua posteridade européia e com o passar dos anos na sociedade global.

O cartesianismo ocupou com naturalidade a mente do homem pós-renascentista que desejava explicações para sua existência, que fossem além do obscurantismo católico. Esta guinada brusca, da sociedade em 1500 anos de história ocidental, provoca um afastamento e enfraquecimento gradual da arte, da poesia e da espiritualidade do núcleo de nossa humanidade. Nosso devir passa a ser refém da ciência que arrasta um enorme e pesado lastro, necessário ao seu desenvolvimento, chamado consumo.

Subjugados por essa equação autofágica, hoje acreditamos apenas nos números frios, pesquisas, testes de laboratório, tratados científicos, especialistas, aquilo que podemos comprovar através da química, física e estatística.

Estamos distantes das nossas emoções e sentimentos, do respeito e da compreensão elevados pelo senso de alteridade, estamos distantes da poesia que diz, conforme Octavio Paz: “meu eu és tu”.

Praticamos uma ética obliqua e obtusa, que busca “compartilhar” – palavra do momento – majoritariamente o que temos de pior.

Portanto não entendo o espanto da sociedade quando um médico (com seu jaleco branco) “compartilha” o sigilo médico e o prontuário de seu paciente, em função de um ódio cego. Me escapa a lógica da indignação quando um advogado (em seu terno irretocável) leva para dentro de uma prisão armas ou drogas para seu cliente. Por que se irritar quando um policial (fardado) libera um marginal em flagrante em troca de parte do crime?

Estamos em uma encruzilhada. O que até pouco tempo parecia romanticamente vantagens competitivas ou estratégias em uma selva capitalista, hoje atinge a todos nós mortalmente à luz do dia, na contra mão, dentro de nossas casas, nos hospitais, nos tribunais, nas igrejas, nas escolas de nossos filhos.

Compreenderemos rapidamente que a ciência apenas já não nos basta para convivermos melhor com o mundo. Não serão suficientes as estatísticas que nos indicam o melhor caminho para termos mais saúde. Não importará sermos atendidos por profissionais dentro de seus uniformes assépticos, se não encontrarmos no seu interior mais civilidade.

A força gravitacional científica que nos atrai inelutavelmente neste momento específico da nossa história, deve perder sua centralidade absoluta a partir da tomada de consciência da nefasta hegemonia. Somos mais do que ciência. Somos aparência e essência, imanência e transcendência.

O que nos olha

unadjustednonraw_thumb_aec

A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O Grande Vidro. Exposição de Marcel Duchamp no Centro George Pompidou, Paris 2014.

Toda a sombra ao se espalhar sobre a terra encobre as imperfeições, alivia o calor, gera a umidade, protege o infante, ou mesmo esconde o crime.

O plano opaco, rugoso e tenso recebia, em outras eras, a tinta andrógina da pintura, não como ofício da sombra, mas como desejo da carne e da pele. O corpo visual se formava na fusão das cores, vernizes, solventes. A massa pastosa deitada sobre o algodão recebia sobre si camadas sobrepostas, veladas, reveladas, justapostas, fixadas através da oxidação permanente no plano branco e passional. Como o chão da floresta recebe suas folhas outonais ou a morte animal e em idêntica perspectiva aguarda a mãe que abre seu ventre para acolher os restos do filho devorado pelo pai, para quem sabe um dia, fazê-lo renascer.

Este foi o destino da pintura até o Grande Vidro de Duchamp.

“A inelutável modalidade do visível” de J. Joyce sofre uma dobra ou dobramento nesta obra de Marcel Duchamp, construída entre 1912 e 1923. Para muito além dos “moldes málicos”, dos “moedores de chocolate”, dos “vasos comunicantes”, a obra ganha o vazio, o espaço aberto, a visão total espaço circundante. O trabalho de Duchamp não está mais no espaço, ele agora é o espaço, ele insere a luz, o reflexo, a presença, a ausência.

Lembrando de George Didi-Huberman, frente ao Grande Vidro, o que vemos é exatamente o que nos olha.

 

What stares at us

 

In sparing itself over the earth, every shadow covers imperfections, relieves the heat, creates humidity, protects the child, or even hides the crime.

In other eras, the opaque, wrinkled, and tense plan used to receive the androgynous tint of the painting, not as a trade of the shadow, but as a desire of the flesh. The visual body used to be formed in the fusion of colors, polish, solvent. The viscous mass laid over the cotton used to receive overlapped layers ― hidden, revealed, juxtaposed, fixed through the permanent oxidation on the blank and passionate plan. Like the forest ground receives its autumn leaves and the animal death, and in identical perspective awaits the mother that opens up her womb to host the remains of the son devoured by the father, so that maybe someday she will make him be born again.

This was the destiny of painting until Duchamp’s “Large Glass”.

James Joyce’s “Ineluctable Modality Of the Visible” suffers a bending in this work of Marcel Duchamp, built between 1912 and 1923. Way beyond the “malic molds”, the “chocolate grinders”, and the “communicating vases”, the work gains the void, the open space, the total vision of the surrounding area. Duchamp’s work isn’t in space anymore: now it is the space, it inserts the light, the reflection, the presence, the absence.

And to remember George Didi-Huberman, in the face of The Large Glass what we see is exactly what stares at us.

Van Gogh foi incompreendido no século XIX, emocionou o século XX e continua emocionando o século XXI. Diferentemente de vários artistas modernos ou mesmo contemporâneos, que apenas nos impactam, Vincent nos emociona, nos toca no fundo da alma. Viajamos em sua companhia, seja através de suas imagens, seja através de suas cartas, seja através de sua história. Muito já foi escrito sobre sua obra e vida.

Antonin Artaud nos da um dos melhores caminhos para entrarmos neste universo obscuro, embora nele reine a luz, em seu livro “Van Gogh suicidado pela sociedade” http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/1401397.pdf

O holandês não construiu sua obra pictórica apenas com pincéis e tintas e telas…Sua vida estava ali. Totalmente ali. Parece pouco ou simples. Mas poucos de nós conseguem dar esse testemunho. Entrega total. Os milhões de turistas que visitam o Museu Van Gogh em Amsterdam, com toda sua tecnologia e arquitetura maravilhosamente bem executada, não encontram o pintor. Mas quando você para diante de uma de suas telas e frui….imediatamente você é contaminado, envolvido, emocionado por sua história impregnada nas cores e formas.

O filme “Loving Vincent” que esta para ser lançado e apresento aqui o seu making off é mais uma tentativa de passar ao público este ato mágico realizado por Van Gogh entre 30/03/1853 e 29/07/1890. A direção é de Dorota Kobiela & Hugh Welchman. Resta conferir se estará a altura do legado de Vincent. Se você estiver interessado em saber mais sobre esta imensa produção confira em http://lovingvincent.com

 

Why does Van Gogh still thrill us?

Van Gogh was misunderstood in the XIX century, rendered the XX century emotional, and keeps on provoking people’s emotions in the XXI century. In a different way than various modern, even contemporeneans artists, that only cause an impact on us, Vincent brings us strong emotions; he touches the depths of our souls. We travel in his company – be that through his images or through his letters or history. A lot has been written on his work and life.

Antonin Artaud gives us one of the greatest paths for us to enter this obscure universe, even though the light reigns on it, in his book “Van Gogh ― The Man Suicided by Society”: http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/1401397.pdf.

The Dutchman hasn’t constructed his pictorial work with just brushes, paint, and canvas… All his life was there. It was completely there. It seems like it’s too little or too simple. But few of us can actually give this testimony. Total surrender. The millions of tourists that visit the Van Gogh Museum in Amsterdam, with all its technology and incredibly well-executed architecture… They don’t find the painter there. But when you stop before one of his paintings and just seize the experience… Then you are immediately contaminated, involved, deep-touched by his history found impregnated in the colors and in the forms.

The movie “Loving Vincent”, that is to be released soon (and here I present its making of), is yet another try to pass to the public this magical act made by Van Gogh between March 03, 1853 and July 29, 1890. Dorota Kobiela & Hugh Welchman are the directors. It remains to be known if it is good enough in relation to Vincent’s legacy. If you are interested in knowing more about this giant production, check it out here: http://www.lovingvincent.com.

Por que Van Gogh ainda nos emociona?

A palavra e a imagem

delacroix

Retrato de George Sand

O museu nacional Eugène Delacroix, administrado pelo Louvre, está localizado em uma das residências do pintor francês em Paris no 6, rue de Furstenberg, ao lado do Boulevard Saint-Germain. Quem já o visitou, caminhou por seu jardim intimista, pelos cômodos do apartamento do artista, ou mesmo em seu estúdio anexo à casa principal, percebe a atmosfera respirada no século XIX. O museu é impecavelmente, simples e envolvente.

No ano passado o museu adquiriu um retrato feito por Delacroix da escritora George Sand em 1834. Para comemorar esta aquisição foi preparada um exposição que resgata esta grande amizade entre o pintor e a escritora que compartilhavam Shakespeare e Byron, além de admirar a força da pintura espanhola.

O museu ganha uma imensa força com essa aquisição, trazendo para seu interior silencioso mais uma elo de Delacroix com o mundo, seja ele romântico nas notas de Chopin, seja na boemia de Paris urbana, seja no campo idílico de George Sand, seja nas poderosas imagens marroquinas que invadiram o território de sua pintura. A angustia de sua arte e a força de suas pinceladas estão na base do expressionismo.

The word and the image

The national museum Eugène Delacroix, managed by the Louvre, is located in one of French painter’s houses in Paris, number 6, Rue de Furstenberg, next to the Boulevard Saint-Germain. The atmosphere of the XIX century is easily noticed by people that have visited the place, walked through its intimate garden, through the rooms of the artist’s apartment, or even entered into his studio attached to the principal house. The museum is impeccably simple and enchanting.

Last year, the museum acquired a portrait of the writer George Sand, painted by Delacroix in 1834. To celebrate the acquisition, they prepared an exposition that covers the great friendship between the painter and the writer. They shared a passion for Shakespeare and Byron and were both fond of the strength of Spanish painting.

With this acquisition, the museum gains an immense strength, bringing to its silent interior one more link between Delacroix and the world ― be that romantic in Chopin’ s notes, be that in the bohemia of urban Paris, or in the idyllic field of George Sand, or even in the powerful Morrocan images that invaded the domain of his painting. The angst of his art and the strength of his brush strokes are in the very basis of Expressionism.

brasil: o caos deliberado

vulcao

2017 inicia e deixa para trás uma sombra grotesca e assustadora de um país que se supera negativamente todos os dias. O Brasil sempre possuiu uma sociedade injusta, porém agora somos, além de (novamente) mais desigual, também mais violenta.

Minha opinião é que por sermos, todos, hipocritamente coniventes com a perpetuação das injustiças provocamos, nas partes mais frágeis do nosso tecido social, a explosão da violência como resposta ou ponto de fuga. E não falo aqui apenas da violência institucional, visível, com nome próprio como: homicídios, assaltos, ou sequestros; falo sobretudo da violência doméstica, social, silenciosa, invisível, e portanto mais trágica, que destrói nossa infância, ou penaliza a velhice e todas as demais fraquezas. Um tipo de violência sórdida que deseja nossa imobilidade e cultiva o medo como seu anjo exterminador.

Finalizamos o ano com este sentimento compartilhado por muitos de um amargor, deixado na boca, provocado por sonhos sepultados, desilusões que se amontoam como um grande depósito de lixo a céu aberto. Uma sensação de perda irreparável, como a morte de um dos nossos, se estabelece ao percebermos novamente o afastamento de conquistas essenciais na formação da cidadania, da dignidade e da cultura. Somos hoje náufragos que mesmo enxergando a terra temos certeza intima que já não conseguiremos salvar nossa vida, a profundidade é mais forte, as ondas são perversas, a maré nos arrasta para fora.

Frustração é a palavra que hoje assombra a alma brasileira e perigosamente nos faz caminhar na borda de um conhecido abismo, experimentado por outros povos em diversos momentos trágicos da história humana, no limite da desesperança.

O ceticismo emergido a partir dessa verdadeira erupção de pus político, gangrena social e aberrações financeiras, poderá inviabilizar a reação de um país que vem sendo paralisado lentamente pelo depósito de cinzas vulcânicas recaídos sobre nossas cabeças a cada nova explosão de irresponsabilidade, violência, ignorância ou simplesmente idiotia.

Não há como negar que mesmo os mais resistentes, otimistas, aqueles que acreditam que fazendo nossa parte estaremos contribuindo para o conjunto, todos os que, conhecendo a história, sabem das grandes dificuldades para se construir um país justo e honesto, mesmo estes estão cansando do Brasil, procuram esquece-lo, afastam-se do país por sua descrença em subjugar este caos estabelecido e que privilegia apenas alguns, por algum tempo, em circunstancias específicas.

Talvez para revertermos essa situação tenhamos de leva-la ao limite. O caos tenha que se aprofundar mutíssimo mais para finalmente apoiarmos nossos pés no fundo do poço e aí  sim nos impulsionarmos na direção oposta do que vivemos hoje em nosso país. É provável que todo o vulcão, chamado brasil, tenha de explodir, esgotar-se suas lavas e suas cinzas sobre nossos corpos, para podermos estabelecer novas bases em nossa sociedade. Uma base sólida onde toda estupidez, individualismo, exclusivismo, insensatez, ganância, e é claro, os nossos cadáveres estejam firmemente petrificados para servirem de lembrança as futuras geração do que não se deve repetir.

brasil: the deliberate chaos

2017 starts and leaves behind a grotesque and frightening shadow of a country that negatively overcomes itself every day. Brazil always had an unfair society but now we are also more violent, besides, again, being more unequal.

My opinion is that, because all of us are hypocritically conniving with the perpetuation of injustices, we provoke the explosion of violence as a response or as a vanishing point in the most fragile layers of our social fabric. And I’m not talking only about the institutional violence, the one that is visible and has a proper name ― like homicides, robbery, kidnapping; above all, I’m talking about the domestic, social violence; the silent, invisible, and thus more tragic, violence that destroys our childhood. or penalizes the old age and all the other weaknesses. A kind of sordid violence that desires our immobility and cultivates fear as its exterminating angel.

We come to the end of the year with this feeling shared by many. The feeling of a bitter taste left in the mouth, incited by buried dreams, disappointments that pile up like a huge trash deposit under open skies. A feeling of loss beyond repair, like the death of a loved one, settles as we notice one more time the distancing of some essential conquests in the formation of citizenship, dignity, and culture. Today we are castaways who, though they can see the coast, know deep in their hearts that their lives won’t be saved. The profundity is stronger than us, the waves are perverse, the tide drags us out.

Frustration is the word that haunts the Brazilian soul today and dangerously makes us walk on the edge of a known abyss ― one that was already experienced by other people in various tragic moments of human history, in the limits of hopelessness.

The skepticism emerged by this true eruption of political pus, social gangrene, and financial abomination can render impossible the reaction of a country that has been slowly paralyzed by the deposit of the volcanic ashes that constantly fall over our heads after each new explosion of irresponsibility, violence, ignorance, or simply idiocy.

There is no way of denying that even the resistant ones, the optimists, those who believe that doing our part we will contribute to the bigger picture; all those who, knowing the history, recognize that there are big difficulties in building an honest and just country ― even these people are getting tired of Brazil, trying to forget it, going distant from the country because of their lack of faith in subjugating this chaos that gives privilege only to some, for some time, under specific circumstances.

Maybe to revert this situation we should raise it to the limit. Maybe the chaos must get deepened a lot more for us to finally set our feet at rock bottom, then we will be able to drive in the opposite direction of what we live today in our country. Probably the whole volcano called Brazil has to explode, to run out of its lava and ashes over our bodies, for us to establish new bases in our society. A solid base under which all stupidity, individualism, exclusivism, foolishness, greed ― and, of course, our dead bodies ― are strongly petrified to serve as a reminder to the future generations of what one should not do.

A linha em si

 

Jorge Luis Borges disse que o sonho é a nossa primeira experiência estética. Talvez a linha desenhada tenha esta mesma primazia para o homem que sonha acordado. O desenho é nossa arte mais antiga, nos acompanha desde a infância da alma no fundo de uma caverna original. A linha é nosso pensamento em toda a sua pureza, leveza e simplicidade. Ela é a extensão do braço, da mão, definindo as letras que grafam os sons das palavras, os signos que constróem a memória no plano da imanência.

A arte do desenho é ainda mais solitária e introspectiva do que a da pintura, já que o desenho, como processo expressivo, é escavação, é um caminho para dentro e a pintura é explosão, um campo que se expande na direção do observador. O desenho suga, absorve. A pintura inunda, envolve. O desenho é osso, a pintura é carne.

Desde as linhas dos bisontes, passando pelos arabescos persas, a caligrafia e os ideogramas orientais, as volutas arquitetônicas, as vinhetas tipográficas, as linhas libertarias de Jackson Pollock, o desenho vem construindo e corporificando a imagem que temos do mundo.

O desenho é essa imagem projetada no espaço com todas as suas dimensões e significados. E a linha, que é a imagem em si mesma, não necessita de mais nada, nenhum artificio, para falar aos nossos olhos. O traço único e raro é aquele que contém toda a expressividade do que a mão tentou captar. Portanto toda a força visual da linha deve se desdobrar em seu próprio limite, através da mão hábil que imprime mais ou menos carga no traço, tornando-a pesada como o rochedo ou leve como as folhas ao vento.

Um segmento de linha já deve ser em si mesmo um corpo, rico, complexo, com suas variações tonais, mudanças de espessura e textura, com suas curvas suaves ou mesmo angulações mais agudas, porém quando a linha se fecha sobre si, torna-se um campo e reconstrói o espaço circundante. A partir deste momento a dimensão do desenho ganha outros atributos, como volumetria, perspectiva, etc. Elementos que já não tem ligação tão forte com a fonte original da linha. Muitos artistas somente percebem importância no desenho a partir deste momento, em que o desenho passa a representar uma ideia externa e, portanto perdem o que o desenho tem de melhor: a força de sua linha pura.

Alguns nos deixaram rastros e traços essenciais para a compreensão do ofício de expressão através da linha.

Jackson Pollock reinventou o dripping possibilitando a liberdade do seu gesto e impedindo qualquer forma de suspensão ou quebra do seu movimento corporal. Um  corpo que desenha.

Jean Baptiste Camille Corot nos dá uma lição de como representar a paisagem sem perder a vitalidade de todas as linhas do desenho. Conseguimos ver o vento e o movimento da cena através dos traços únicos e precisos de sua mão.

Vincent Van Gogh desenhava com lápis de carpinteiro, com seu grafite duro e pobre, porque não lhe interessava a maciez e a riqueza de outros grafites para expressar sua alma e a daqueles que representava.

pollock01--575x323_Fotor

Pollock

 

The Line [in] Itself

 

Jorge Luis Borges said that the dream is our first aesthetic experience. Maybe the drawn line has that same primacy to the man who dreams awake. Drawing is our oldest kind of art, and it follow us from the childhood of the soul in the bottom of an original cave. The line is our thought in all its purity, lightness, and simplicity. It is the extension of the arm, the hand, defining the letters that mark the words sounds, the signs that build memory in the plan of immanence.

The art of drawing is still more solitary and introspective than it is the art of painting, since the draft, as an expressive process, is excavation, an inwards path, while painting is explosion, a domain expanding towards the observer. The draft sucks you in, absorbs you. The painting deluges, involves you. Drawing is bone, painting is flesh.

Since the bisons’ lines ― going through the Persian arabesques, the Asian calligraphy and ideograms, the architectural scrolls, the typographic vignettes, the Jackson Pollock’s libertarian lines ―, the art of drawing builds and vivifies the image we have from the world.

The drawing is this image projected in the space with all of its dimensions and significances. And the line, that is the image in itself, does not need anything else, no artifice at all, to speak to our eyes. The unique and rare trace is the one that contains all the expression of what the hand tried to catch. Therefore all the line’s visual force must unfold in its own limits, through the skillful hand that prints more or less pressure on trace, making it as heavy as large rocks or as light as leaves in the wind.

A segment of line is itself a rich, complex body, with its tonal variations, its changes in thickness and texture, with its subtle curves or even its sharpest angles. But when the line closes on itself, it becomes an area and rebuilds the entourage. From this moment on, the drawing’s dimension gains other attributes, like volume, perspective, etc. ― elements that have no longer a strong link with the line’s original source. Lots of artists only realize the importance of the drawing from this moment, when it starts to represent an external idea, and, this way, they lose what is best in drawing: the force of its pure lines.

Some artists have left trails and traces that are essential to the understanding of the art of expression through the line.

Jackson Pollock reinvented the “dripping” technique, making it possible for his gestures to be free and preventing any form of suspension or break in his body moves. A body that draws.

Jean Baptiste Camille Corot gives us a lesson on how to represent landscape without losing the vitality of all the drawing’s lines. We can see the wind and the movement of the scene through his hand’s unique and precise traces.

Vincent Van Gogh used to draw with a carpenter’s pencil, with its hard and poor graphite, because it didn’t matter to him the softness and the richness of other kinds of graphite in order to express his soul and the souls of those he had portraited.

Sociedade crítica ou abaixo da crítica?

berenson

ITALY. 1955. Bernhard BERENSON

Um dos efeitos mais trágicos da revolução industrial, para nossa sociedade, foi o gradual afastamento, e consequente alienação, entre o consumidor e o objeto consumido.

Quanto mais elaborados e complexos estes objetos são, mais distante está sua lógica daqueles que o consomem. Um moedor de café manual, mecânico fazia um sentido corporal, físico e mental para quem o utilizava como, da mesma forma, sentido completo fazia a utilização de um arado.

Estes objetos estavam completamente apreendidos por seus usuários. Eles compreendiam sua mecânica, sua força aplicada, um eventual conserto de suas peças, de suas engrenagens e alavancas.

Na medida em que a eletrônica invadiu a produção, os objetos, grande parte dos consumidores foram afastados da lógica de funcionamento das coisas, ficando assim reduzidos ao seu resultado ou benefício viciante e sedutor. O consumo cria então uma espécie de encantamento, de mágica fazendo com que os primeiros usuários procurem atrás da TV a pessoa que aparece em sua tela.

Este encantamento, com a revolução tecnológica digital, se aprofunda, o distanciamento entre consumidor e objeto consumido se potencializa no conceito do plug and play.

Hoje, ao encantamento soma-se uma dependência viciante, sem que a grande maioria dos usuários tenham a mais remota ideia de como as imagens se compartilham, como estou falando em áudio e vídeo com o outro lado do planeta, como as redes sociais reconhecem meu perfil, hábitos, comportamentos e deslocamentos por um mapa virtual construído por nosso telefone.

Passamos grande parte dos nossos dias compartilhando, baixando, registrando, comentando, apenas digitando e tocando em teclas virtuais, sem saber exatamente como tudo isso funciona.

É claro que não precisamos todos saber profundamente sobre algoritmos, sobre ondas via satélite, sobre redundância, sobre nanotecnologia, ou mesmo como responde um touch screen para utilizarmos nossos aparelhos mágicos, como da mesma forma, não sabiam nossos ancestrais sobre combustão, quando acenderam o primeiro fogo.

Mas a minha pergunta é: se desde o homem do Cro-Magnon desenvolvemos nosso cérebro através de tarefas conjugadas entre nossos sentidos e os objetos que manipulamos, por que nos afastamos tanto da natureza que nos cerca e nos serve, mesmo sendo esta natureza virtual e tecnológica?

Se estamos apenas nos servindo de “coisas” que nos satisfazem, como dependentes de um opiáceo que nos alivia as dores do dia a dia, entramos em uma armadilha da qual não teremos capacidade intelectual e emocional para sair.

O respeito dado por um homem ao pano que tecia e que posteriormente se transformaria em sua roupa, advinha exatamente da capacidade de valorar o seu trabalho e o tempo destinado ao ofício. Esse sempre foi o respeito pelo esforço de transformação da matéria em conforto, seja material ou espiritual.

Por outro lado, se não conseguimos fazer uma leitura crítica, nem mesmo sobre as ferramentas que utilizamos em nosso cotidiano, como poderemos ter uma postura crítica sobre nossa ética, sobre as relações sociais, de poder, ou mesmo espirituais?

As opiniões e comentários “críticos” que vemos hoje nas redes sociais, feitos por grande maioria dos internautas, me parecem fruto desse descompromisso com as coisas e as pessoas.

Poderíamos chamar de uma verdadeira coisificação daquilo que eu não respeito, daquele que desconheço. Com relação aos objetos não respeito porque são indecifráveis e descartáveis, com relação aos outros não respeito porque são insignificantes e diferentes (não sou eu). Resultando daí como consequência prática os estupros, as fobias e os preconceitos.

Esse estado esquizofrênico individual está nos levando a uma morbidez coletiva onde o senso crítico, que sempre nos fez caminhar, está sendo reduzido a um senso destrutivo e paralisante.

 

A critical society or a society beneath criticism?

One of the most tragic effects of Industrial Revolution to our society was the gradual distance (and its consequent alienation) put between the consumer and the consumed object.

The more elaborate and complex these objects are, the more distant is their logic to the ones that consume them. A manual, mechanic coffee grinder used to make a corporal, physical, and mental sense to the one who used it, in the same way that the use of a plow used to make a complete sense.

Those objects were completely seized by their users. They understood the mechanics, the applied force, the eventual fix of their parts, of their gear and crowbars.

As the electronic invade the production of the objects, a large part of the consumers were pulled out of the functional logic of things, remaining thus reduced to the result or addicting and seductive benefit of products. The consumer creates then a sort of enchantment, of magic, making the first users seek beyond their televisions the people that appear on their screen.

That enchantment, with the digital and technological revolution, gets deeper and deeper, the distancing between the consumer and the object gets potentialized by the concept of “plug and play”.

Nowadays, in addition to the enchantment, there is an addicting dependence, with the great majority of the users not even knowing how the images are shared, how it is possible to talk in live stream audio and video to the other side od the world, how the social media recognize my profile, my habits, my behavior and the moves through a virtual map built by our cell phones.

We spend a great part of our days sharing, downloading, recording, commenting, only typing and touching virtual keys, without knowing exactly how these things work.

Of course, we don’t need to have a deep knowledge of algorithms, on satellite waves, on redundancy, on nanotechnology, or even on how a touch screen works to use our magic gadgets; in the same way, our ancestors didn’t know anything about combustion when they’ve lightened the first fire.

But my question is: if since Cro-Magnon Man we have been developing our brains though conjugated tasks of senses and the objects we manipulate, why do we moved so far from the nature that rounds and serves us, even if it is this virtual and technological nature?

If we are only serving ourselves of “things” that make us satisfied, like dependents of an opiates that alleviate the pains of everyday life, we enter into a trap which we won’t be able, both intellectually and emotionally, to escape from.

The respect given by a man to the piece of cloth that he weaves, which later would become his clothes, had come precisely from the capacity of evaluating his work and the time invested in his job. This always was the respect for the effort of a transformation of matter to comfort, that being a material or a spiritual one.

On the other hand, if we can’t produce a critical view, not even on the tools that we use in our day to day lives, how can we have a critical view on our ethics, on our social relations, on power or even spiritual relations?

The “critical” opinions and comments we see nowadays on the social media, made by a great majority of internet users, seem to me a result of that lack of compromise with people and things.

We could call it a true objectification of what I disrespect, of what I don’t know. In what concerns the objects, I don’t respect because they’re indecipherable and disposable; in what concerns the others, I do not respect because they’re insignificant and different (they are not me). As a consequence, the results are the rapes, the phobias, and the prejudices.

That schizoid individual state is leading us to a collective morbidity, in which the critical sense, that has always made us move, is being reduced to a destructive and overwhelming sense.

Elas e Eles. Eu e o Outro.

Sorrow_Fotor

Sorrow de Vincent van Gogh

A força física aplicada sobre a matéria, por vezes passiva, por outras nem tanto, sempre foi nosso ofício e obsessão. Este sentido de dominação atávica em muitos casos significou transformação ou mesmo sublimação. O ser humano tornou-se um sobrevivente a partir da instrumentalização desta força muscular, nos permitindo, em uma visão superficial, superar a própria matéria dominada. O que não é absolutamente verdade.

A técnica aplicada à força física a potencializou com inteligência e ambição. Mas é importante reconhecermos que este potencial original, que nos garantiu a sobrevivência, desdobrou o suor e o sangue através da ciência, em armas e outras ferramentas de poder. Agora já não mais visando o domínio do humano sobre a natureza, mas do humano sobre o próprio humano.

Portanto o que permanece ressoando por trás das nossas ações estratégicas, intelectuais ou mesmo tecnológicas, para ampliarmos nosso poder, seja econômico, político, territorial ou social, ainda é nossa força física. Trata-se sempre do mais forte subjugando o mais fraco, superficialmente falando.

A realidade por trás de nossa civilidade ainda reflete a necessidade de subjugar, de dominar, de eliminar aquilo que nos impede o caminho direto para a realização de nossos desejos mais inconfessáveis.

O respeito por aquilo que se demonstra mais fraco, em nossa sociedade, ainda é muito incipiente e invariavelmente confundido com uma espécie de ingenuidade desprezível.

Mesmo nos níveis mais leves, se é que podemos colocar desta forma, onde o adulto se impõe à criança, ou um superior hierárquico aniquila seus subordinados, ou mesmo quando um homem e sua massa muscular intimida a mulher subjugada, podemos ler com clareza a presença daquele corpo ancestral sedento por conquistas, por dominação, por invasão, enfim por violação.

O humano atual esconde ainda sob sua pele um outro homem antigo feito apenas de músculos, sangue, suor e instintos, que se revelam, mesmo em suas ações mais refinadas e sutis. Vamos a alguns casos concretos que fazem estremecer a estrutura mais insensível.

Como poderemos explicar o comércio e estupro sistemático de mulheres e meninas da minoria religiosa yazidi, nas áreas tomadas pelos Estado Islâmico sob o argumento da permissão religiosa que as entende como infiéis? Mais de 5 mil delas foram sequestradas no ano passado. Tornaram-se escravas sexuais em nome de Deus. Passagens da bíblia e do alcorão são utilizadas para justificar estas atrocidades. Inacreditavelmente estudiosos dos textos sagrados, perdem um tempo precioso, discutindo questões semânticas, tentando justificar ou condenar estas atrocidades. Penso que no fundo deste imenso poço de lama e sangue, a única forma capaz de brotar é uma ferocidade muscular que nada respeita. Não há religião, tampouco luta social, menos ainda fé em algum código ético ou cultural. Apenas uma utilização da matéria, do corpo, como massa amorfa, sem nenhum caráter espiritual, visando saciar um imenso vazio, um grande nada.

Já no Sudão do Sul o próprio governo autoriza as chamadas forças de segurança – homens com uniformes militares, com fuzis nas mãos, sobre carro de guerra ou camionete, imagens que já não suporto mais ver – a cometer abusos em massa, entre eles violência sexual e assassinato como forma de “salário”, se é que conseguimos compreender tal acordo. Em cinco meses foram registrados mais de 1.3 mil estupros em apenas um dos dez estados do país. ”Trata-se de uma situação de direitos humanos entre as mais horríveis no mundo, com uma utilização em massa de violações como instrumento de terror e como arma de guerra”, afirmou o alto comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein.

Como entender mais de 48 mil estupros por ano no Brasil? É estarrecedor? Estarrecedor é saber que apenas 15% dos casos são denunciados, portanto, podemos chegar ao incrível número de meio milhão de mulheres e crianças estupradas por ano em nosso país. Estamos falando de um país com todas as instituições funcionando, vivendo com sua democracia representativa e garantias individuais em ordem, quem o percorre diria que tudo está bem e nossos dias transcorrem dentro da normalidade (embora muitos afirmem que vivemos uma guerra civil há muitos anos).

Mesmo a India com toda a sua tradição espiritual, abriu uma enorme ferida social permissiva, onde bandos de homens estupram meninas a luz do dia, dentro de ônibus, como se fosse uma atividade cotidiana.

Porém, não gostaria de reduzir a questão do estupro a uma perspectiva apenas de gênero, ou mesmo sexual entre homens e mulheres. Retomo meu raciocínio inicial afirmando, é a força física ancestral que está na base das violações, é um desejo de aniquilação, de subjugação do outro. E desse ponto de vista é deprimente vermos que na medida que avançamos jurídica, social e tecnologicamente, os estupros nos acompanham e se adaptam às novas realidades, como vem acontecendo em redes sociais, em nossas fronteiras físicas e mentais, nos ambientes privados, ou mesmo coletivos. Estupros cometidos através de estruturas mentais, econômicas, sociais, tecnológicas, sempre buscando reduzir “o outro” a condição de nada.

Em qualquer âmbito onde o respeito às diferenças aparece como sol, essa sombra perversa se dilui em nossa humanidade.

 

They and the others. The other one and me.

The physical force applied on the matter, sometimes passive, sometimes not so, always have been our task and our obsession. This sense of atavic domination meant, in many cases, change or even sublimation. The human being became a survivor through the instrumentalization of this muscular force, which, in a superficial view, allows us to overcome the dominated matter itself. Which isn’t true at all.

The technique, allied to the physical force, potentialized the last one with intelligence and ambition. But it’s important for us to recognize that this original potential, that provided survival, has overlapped sweat and blood through science, in guns and other tools of power — not intending the human’s domination of nature anymore, but the human’s domination of the human himself.

Therefore, what remains resounding behind our strategic, intellectual or even technological actions, for us to expand our power — that being economical, political, territorial or social —, still is our physical force. It is always about the stronger subjugating the weaker, talking superficially.

The reality behind our civility still reflects the necessity of sub judgement, of domination, of eliminating the things that prevent the direct way to the fulfillment of our most unspeakable desires.

The respect for what demonstrates itself as a weaker self, in our society, is still much incipient and invariably mixed up with some kind of despicable naivety.

Even in the smoother levels, if we can put this way, where the adult imposes himself to the child, or an hierarchical superior annihilates his subordinates, or even when a man with his muscular mass intimidates the subdued woman, we can clearly see the presence of that ancestral body hungry for conquest, domination, invasion, and at last for violation.

Yet, the current human hides under his skin another ancient man made only by muscles, blood, sweat, and instincts, that reveal themselves even in his most refined and subtle actions. Let’s see some concrete cases that make even the most insensible structure shudder.

How can we explain the commerce and the systematic rape of women and girls from the religious minority Yazidi in the areas taken by the Islamic State under the argument of religious permission that take them for infidels? More than 5 thousand of them were kidnapped in the last year. They have become sexual slaves in the name of God. Excerpts from the Bible and the Koran are used to justify these atrocities. Incredibly, researchers of the holy books lose a precious time discussing semantic questions, trying to justify or to condemn theses atrocities. I think that, at the bottom of this immense hole of mud and blood, the only life form capable of blooming is a muscular ferocity that respects nothing. There’s no religion, neither social fight, nor faith in some ethical or cultural code. It’s just use of the body’s matter, as an amorphous mass, without any spiritual character, trying to satisfy an immense emptiness, an immense nothing.

In South Sudan, the government itself authorizes the so-called security forces — men in military costume, with fusils in hands, on war cars or trucks, images that I can’t bear to see anymore —   committing mass abuses, between them sexual violence and assassination as a form of “payment”, that is if we can comprehend that arrangement. In five months, more than 1,3 thousand rapes were registered in only one of the ten states of the country. “This is one of the most horrendous human rights situations in the world, with massive use of rape as an instrument of terror and weapon of war”, said Zeid Ra’ad al-Hussein, the U.N.’s high commissioner for human rights.

How are we supposed to understand more than 48 thousand rapes a year in Brazil? Is it terrifying? Terrifying is to know that only 15% of the cases are reported; therefore, we can manage to arrive at the unbelievable number of half million women and children raped a year in our country. We are talking about a country with all its institutions working, living in its representative democracy and individual guarantees in order; one who passes by would say that everything is fine and that our days go into the normality (although some people affirm that we live in a civil war for long years).

Even India, with all their spiritual tradition, have opened an enormous permissive social wound, in which bunch of men rapes girls during daylight, inside a bus, like it was a daily activity.

However, I wouldn’t like to reduce the rape question to a perspective of genre only, or even a sexual one between men and women. I go back to my initial thought, affirming that it’s the ancestral physical force that is the base of violations, it’s a desire for annihilation, for subjugation of the other. And from this point of view, it’s depressing to see that, as we progress in law, society and technology, the rapes follow us and adapt to the new realities, as it’s occurring with the social networks, in our physical and mental borders, in the private ambients and even in the collective ones. Rapes committed through mental, economic, social, technological structures, always looking forward to reducing “the other” to the condition of nothing.

In every range where the respect to the differences appears like the sun, this perverse shadow is diluted in our humanity.