Fiéis e infiéis

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Foto site Trilhas e aventuras


 

Os recentes atos do terror me transportaram para um plano, que eu poderia chamar de campo da imanência, um lugar silencioso onde reina uma angustia suave, nada banal, porém profundo, escuro e abissal. Como se toda a nossa história pudesse encontrar com um exilado em uma esquina, colocasse todas as cartas sobre a mesa de um café, antes de projetar uma última imagem, sofrendo de um profundo cansaço e desejando uma nova e radical inflexão. O corpo flutuando, submerso na lentidão e surdez do mundo líquido.

A “quem” ou ao “que” devemos fidelidade? A uma letra, a uma palavra, a um texto, a um livro, a um deus, a um homem, a uma sociedade, ou apenas a nós mesmos e nossas convicções íntimas? E até onde podemos ir em nome destas crenças?

Nossa civilização está fundada sobre estas perguntas. Temos lutado por elas, matado por elas, dizimado povos, conquistado territórios, riquezas, consolidado leis, estabelecido novos padrões de comportamento, avançado cientificamente, mas com isso semeando e colhendo um ódio flexível e resiliente. Um ódio que muda de face diante do tempo que comprime e distorce nosso espaço.

O mesmo ódio individual que ganha força em um caldo de cultura coletivo, define um corpo conceitual consumindo as entranhas de homens, de crianças, de mulheres ou mesmo de um povo, fazendo com que se lancem a uma guerra em nome de sua fidelidade a este ódio ou desejo de vingança.

Esta fidelidade aliada a um poder político, que por sua vez, esteja associado a um dogma religioso e ao discurso ideológico cria um exoesqueleto poderoso, resistente, criando um cenário travestido de cultura, dificultando sua leitura, forjando uma aura de respeito e credibilidade, atraindo para si desavisados e incautos, que ao se deixarem utilizar por esse poder, o utilizam também para realizarem seus mais íntimos e obscuros desejos. Como por exemplo matar alguém, por ser considerado infiel ou a si próprio por se considerar extremamente fiel.

França, Argélia, Síria, Iraque, Afeganistão, Nova York, Darfur, Somália, Africa do Sul, Vietnam, Tibete, Chade, Nicaragua, Colombia, Paquistão, Ucrânia, Croácia, Bósnia, Venezuela, Israel, Palestina, Serra Leoa, Líbia, Uganda, Ruanda, Moçambique, onde estão os fiéis? Como distinguir a infidelidade combatida?

O ódio está ficando mais e mais difuso, está diluído em uma multidão sem face e sem nome, sorrateiro e astuto, tendo como fermento a perversa dicotomia: nós e eles. Pode explodir em uma rua, um bairro, uma cidade, um país ou mesmo entre continentes. O horror brota e mata sem fidelidade à vida, sempre fiel a este ódio, seja através de mísseis teleguiados lançados por caças, armas de última geração, fuzis, pistolas, lanças, facões, pedaços de pau ou mesmo pedras. Como alguém pode acreditar que existam nós e eles?

Quem não é fiel deve necessariamente ser considerado infiel? A fidelidade pode ser resumida na leitura de um livro? na execução de um ritual? na obediência de uma lei? Esse maniqueísmo se comprova muito humano, mantendo nossa fidelidade ao ódio, garantindo um inimigo visível que alimenta o discurso da guerra, nesse caso “santa”.

Apenas uma certeza temos: quando explode uma guerra já não há possibilidade de existir vencedores.

Mantenho minha fidelidade à este delicado fio que mantém a vida, mesmo porque com a morte não precisamos nos preocupar, já que ela cuida perfeitamente bem de si própria.

The Faithful And The Unfaithful

The recent acts of terrorism have brought me to a plan which I could call field of immanence, a silent place where a smooth angst reigns ― not a trivial one, but a very deep, dark and abyssal one. It’s like all our history could meet an exilated man in a corner, putting on the table of a coffee shop all the playing cards before projecting a last image, while suffers of a profound fatigue and wishes a new and radical inflexion. The body floating, submersed in the liquid world’s slowness and deafness.

To whom or to what do we own fidelity? To a letter, a word, a text, a book; to a god, a man, a society? Or just to ourselves and our most intimate convictions? How far can we go in the name of these beliefs?

Our civilization is funded on these questions. We have been fighting for them, killing for them, decimating peoples, conquering territories and wealths, consolidating laws, laying down new behavioral patterns, scientifically advancing ― but, because of that, we’re also spreading and gathering a flexible and resilient hatred. An hatred that changes its face before the time that compresses and distorts our space.

The same individual hatred that gains strength in a collective breeding ground of culture also defines a conceptual body that consumes the guts of men, of children, of women or even of an entire people, calling them to arms in the name of their faithfulness to this hatred or desire for vengeance.

This faithfulness, combined with political power ― which in turn is associated to a religious dogma and an ideological discourse ―, creates a powerful, resistent exoskeleton, setting up a scene disguised as a culture, which difficults the interpretation from the outside, and forges an aura of credibility and respect, thus attracting to itself the reckless and the unwary that let this power use them and that use this power to accomplish their most intimate and obscure desires. Killing someone, for exemple, because one is considered infidel, or comitting suicide for being profoundly faithful.

France, Algeria, Syria, Iraq, Afghanistan, New York, Darfur, Somalia, South Africa, Vietnam, Tibet, Chad, Nicaragua, Colombia, Pakistan, Ukraine, Croatia, Bosnia, Venezuela, Israel, Palestine, Sierra Leone, Libya, Uganda, Rwanda, Mozambique ― where are they? How can one distinguish the unfaithfulness that must be fought?

The hatred becomes more and more diffuse; it’s mixed in a faceless and nameless crowd, being sly and sneaky, having as leaven the perverse dicothomy “they and us”. It could explode in the street, in the neighbourhood, in a town, in an entire country or even between continents. The horror arises and kills without any faithfulness to life, but always being faithful to this hatred, whether by guided missiles released by fighter planes, state-of-the-art weapons, riffles, pistols, spears, knives, pieces of wood or even rocks. How can anyone truly believe there’s “they and us”?

Those whom are not faithful must necessarily be considered infidel? Can faithfulness be resumed by the lecture of a book? In the execution of a ritual? In the obedience to a law? This manicheism shows itself in a very human way, maintaining our fidelity to the hatred, ensuring an visible enemy that increases the war’s discourse ― in this case, an “holy” war.

One thing’s for certain: when a war explodes, there are no winners at all.

I keep my faithfulness to this delicate thread that maintains life ― even because we don’t need to concern with death, since it can handle itself perfectly well.

Você é o que parece?

Orson Welles 1970

Orson Welles 1970

Braque 1949

Braque 1949

Um retrato realizado por um pintor revela a alma do modelo. A fotografia capta o sentimento no instantâneo. A luz na paisagem desperta certas emoções. As roupas ou adereços podem transformar uma pessoa.

Todas estas frases acima, lugares comuns, simples vulgaridades, sugerem que uma coisa é o que somos e outra é o que parecemos ser. Uma coisa é a essência outra é a aparência.

Mas será que não somos apenas aquilo que parecemos?

Será possível nossa pele não transpirar simplesmente a química de que somos feitos? Nossos olhos absorvem ou emitem luz? A imagem é retida no fundo da retina ou é projetada no corpo observado? As formas criadas são resultado de agentes externos ou são pura extensão de nossas mãos? Cada ruga descreve uma história processada, cada gesto mais um desdobramento sobre si mesmo, ao respirar o corpo fala, ao sonhar estamos nus, não há como separar o que somos da nossa aparência.

Algum dia, em nossa ancestralidade, já conhecemos este homem integral, uno, indissociável, após os gregos passamos a enxerga-lo como essência e aparência, como corpo e espírito, céu e inferno. A partir daí abrimos caminho para a construção do mundo da imagem projetada, onde o “poder” se aninhou e o “consumo” se transformou em seu filho pródigo.

A imagem projetada hoje tem vida própria, recebeu o status de realidade, com valores e dimensões próprias. Fracionamos a vida em milhares de espelhos, fragmentos e desconexões que se sobrepõe velozmente em busca de uma unidade que não se encontrará jamais, apenas giramos o caleidoscópio, mudamos tudo, todos os dias, todas as horas, para que tudo permaneça exatamente igual.

Quem são esses rostos que passam por nós? pais, amores, amigos, inimigos, superiores, inferiores, estrangeiros, irmãos, desconhecidos, terroristas, facistas, pacifistas; nos perdemos na nomenclatura, na doce ilusão do detalhe. Reside aí, na separação entre a essência e a aparência, os grandes equívocos e injustiças entre indivíduos, grupos sociais e povos, julgamentos lastimáveis que geram preconceitos, ódios e seguramente mais intolerâncias.

Quando olhamos uma imagem, um retrato deveríamos ver o ser integralmente, de um só golpe, não apenas uma de suas pequenas facetas.

Certamente essência é o mesmo que aparência.

Giacometti 1966

Giacometti 1966

Artaud by Man Ray em 1926

Artaud by Man Ray em 1926

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Are you what you seem to be?

A portrait made by a painter reveals the model’s soul. The photography captures the feeling on the snapshot. The light on the landscape awakens certain emotions. The clothes or adorns can transform a person.

All the statements above, common places, simple vulgarities, suggest that one thing is what we are and another thing is what we seem to be. One thing is the essence, other is the appearance.

But aren’t we only what we appear to be?

Is it possible to our skin just not to simply transpirate the chemistry of what we are made of? Do our eyes absorb or emit light? Is the image kept on the back of the retina or is it projected on the observed thing? Are the created forms a result of extern agents or are they a pure extension of our hands? Every wrinkle describes a processed story, every gesture another development into the self, the body speaks while breaths; as we dream, we are naked; there’s no way to pull apart what we are from our appearance.

Someday, in our ancestrality, we have already met this integral, unique, indissociable man; after the Greek, we see him as essence and appearance, as body and spirit, heaven and hell. Since that, we have opened the road to construction of the projected image’s world, where the “power” has cuddled and the “consume” has become its prodigal son.

Today, the projected image has its own life and has received the status of reality, with its own values and dimensions. We fractionate life in thousands of mirrors, fragments, and disconnections that quite fast overlap in a seeking for a unity that is never to be found. We just turn the kaleidoscope, change everything, every day, every hour, for everything to be exactly the same.

Who are those faces that pass by? Parents, lovers, friends, enemies, superiors, inferiors, foreigners, brothers, unknown people, terrorists, fascists, pacifists; we lose ourselves on nomenclatures, in the sweet illusion of the detail. There resides, on the separation of essence and appearance, the big mistakes and injustices among individuals, social groups and peoples, awful judgments that generate preconceptions, hatred, and surely more intolerances.

When we look an image, a portrait, we should see the being integrally, with just one punch, not just one of its little facets.

Certainly essence is the very same of appearance.