Trânsito

O texto é claro como água, as ideias iluminam, e sua visão sobre a linguagem e onde encontrá-la em nosso mundo não deixa dúvidas, os elementos são os mesmos de sempre, os sons de nossa eternidade, os mesmos que nos acompanham nos milhares de anos em que estamos caminhando sobre a terra, sejam naturais ou artificiais.

Nosso corpo é uma caixa que reverbera. A respiração, o ronco, o raio, a mão na pedra, no metal, no vidro, e por fim na corda ou couro onde surge a tensão que gera vibração.

Como confrontar estes sons, recolhê-los, ou misturá-los, esse é nosso ofício, enxergar onde não se vê, olhar ao revés, encontrar o inexistente, tornar visível.

John Cage ainda revela, com mais propriedade, o silêncio em sua obra, o tempo aparece entre dois acordes, por isso não reconhece diferença entre tempo e espaço.

Em qualquer experiência musical o que mais nos envolve são os sons, em si, que se sobrepõem e nos arrastam por seu caminho sinuoso. Já o que nos perturba na experiência musical de Cage é exatamente o silêncio.

Ele abre “o tempo” que nos retira do campo alucinógeno da música ouvida, permitindo uma espécie de intersecção com nossa alma em movimento. Abre “o espaço” para sonoridades internas do ouvinte, não se trata do pensamento, mas de fagulhas dos sentidos (pré-racionais) arremessadas do ouvinte na direção da música.

Ouvir Cage cria uma angústia psíquica, amplia o espírito e nos transpõe para o território da inquietude.

 

Traffic

The text is as clear as water, the ideas get enlightened, and its view about language and where to find it in our world don’t leave any doubt: the elements are always the same, the sounds of our eternity, the same sounds that are kept with us in these thousands and thousands of years in which we are walking on earth, being natural or artificial.

Our bodies are like reverberating boxes. The breath, the snore, the lightening, the hand on the stone, on the metal, on the glass, and, at last, on the rope or leather in which the tension that generates vibration springs.

How can we confront, collect, or mix these sounds? This is our job: to see where no one can see, to look in reverse, to find the nonexistent, to make visible.

With more authority, John Cage reveals yet the silence in his work, the time appears between two chords, and because of that doesn’t know the difference between time and space.

In any musical experience, what moves us the most are the sounds themselves, that overlap themselves and drag us to their winding way. But, in the musical experience of Cage, what disturbs us is precisely the silence.

He opens the “time” that extracts us from the hallucinogenic field of listened music, allowing some sort of intersection with our souls in movement. Opens the “space” to the listener’s intern sonorities. It’s not about the thought, but about the spark of senses (pre-rationals) threw from the listener in the music’s direction.

To listen to Cage is to create a psychic angst, to enlarge the spirit, and to be taken to the territory of disquiet.

 

O outro mar de Daniel

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Limite de Mário Peixoto

 

Pensar na poesia de Daniel me remete para o campo da desordem dionisíaca, para a palavra que revoluciona, e o que primeiro me vem a cabeça são pilhas de manuscritos e informes.

A alma da poesia de Daniel é apenas, e tão só, manuscrito em sua sagrada materialidade, na forma e conteúdo, inextricáveis siameses ligados por seu sistema nervoso central.

O que é um manuscrito em Daniel? Uma madeira cravada de pregos encontrada na beira de um rio ao sul de uma ilha. Um amontoado de papeis escritos, carregados sob o braço e finalmente perdidos em um bar. Uma  pasta com dezenas de recortes, pedaços de desenhos e anotações. Cópias de imagens e textos em colagens toscas e poderosas. Canetas ordinárias e, mesmo assim, roubadas. As folhas que se sobrepõe manchadas por bebida, fumo, tinta, ou algum aromático feminino. Uma chave que não abre portas. Bolsos de paletós que só contem inutilidades. Roupas que não combinam. Muitas letras, em azul, que se justapõe sobre papéis brancos, pardos, para embrulhar pão, provas inutilizadas de gravuras mal impressas, folhas pautadas e destacadas de cadernos estudantis. Outras letras, agora em preto, datilografadas em Remingtons velhas, pesadas, dispostas em mesas repletas de objetos sem sentido ou nexo, mesas carregadas com matéria gordurosa e graxa, bastões disformes, incensos, cinzeiros cheios, poeira e pelos, muitos pelos de gatos, togas e gotas. Outras mesas com gavetas entupidas por objetos prosaicos, mal fechadas, sujas e marcadas por tinta seca. Novas palavras, agora no rádio, em ondas que ele arrasta para seu mar. No fundo desse mar onde uma aranha somente quer dormir. O mar de sargaço.

Os manuscritos de Daniel reúnem os insólitos, os singulares, os avessos, a palavra comum tem lugar apenas na frase enferma, febril, transformada em palavrapólvora. Ao capitalismo oferece o nobre oficio de fazer pão, logo após fincar seus dentes como predador de palavras, acaricia a cabeça calva da avó. Daniel à noite caminha só nas ruas, entre manuscritos, mas amanhece pronto para abraçar a primeira boa causa social que encontrar. Las madres, los viejos, los niños, os que não tem nome, serão todos cuidados em seus sonhos da vigília. Um poeta urbano, da fricção coletiva, observador atento da cloaca da história, dos prédios antigos e suas angulosidade pontiagudas, cortantes, portas, balcões, latrinas e esgotos. A natureza de que trata sua poesia é apenas a borda da civilização, a fronteira da humanidade, a tartaruga morta na praia serve uma mesa de Buñuel, o poeta caminha nestes subúrbios da alma em busca do que restou do ser. As flores de uma Buenos Aires desolada. “Mas quem nos escuta não escuta nossa voz. Escuta nossas palavras. Então se perde no labirinto da linguagem”. Daniel segue uma trilha áspera, ácida, aberta por poetas como Arthur Rimbaud e Antonin Artaud. Essa trajetória é cristalina e incandescente no texto “Flor sobre tronco inmóvil” – “um puñal que atravesó el corazón de la poesía”.

Sua publicação recente: “O outro mar”, uma obra com apenas noventa e nove páginas, contém muito da vida do poeta, em uma tessitura complexa e múltipla. Sua poesia, seus pais, seus gatos, a prosa, os amigos, quatro outros poetas traduzidos, seu mergulho em las madres, sua deserção do serviço militar, Florianópolis, Buenos Aires, o rio, o mar, seu voo na rádio, o som de seu piano, o vinho compartilhado, o pão repartido.

Um corpo em forma de livro, orgânico, em movimento, sua leitura reproduz em nós as luzes da fisiologia, inspira (poema), expira (prosa), mastiga (palavra), saliva (metáfora), engole (imagem), vomita (história), cospe (realidade), cheira (cidade), lacrimeja (mar), e no coração (amor e coragem). Um livro que inquieta porque retesa nossa pele e tenciona nossos músculos.

Encontro, em sua poesia, uma ética extrema e singular no ato de tratar um texto, negando certas palavras, resgatando outras tantas. Daniel é um moralista no sentido definido por Jean Genet, libertário, porém consciente de que não temos nada do que nos libertar. Nossa tragédia é circular. Seus dedos longos e curvos como também sua espalda debruçada sobre o papel ou o piano, exercem com rigor o ofício de sacrificar tudo aquilo que não seja tão pesado como o mar.

Daniel’s Other Sea

To think about Daniel’s poetry is something that transports me to the field of Dionysian disorder, to the word which revolutionates, and what first comes to my mind is piles of manuscripts and reports.

The soul of Daniel’s poetry is just, and solely, a manuscript in its sacred materiality, in form and content, inextricable siamese twins connected by their central nervous system.

What is a manuscript in Daniel’s work? A piece of wood craved by nails, found by the river in the south of an island. A pile of written paper, carried under the arm and finally lost in a bar. A briefcase full of paper cuts, drawing’s pieces and notes. Copies of images and texts in rough and powerful collages. Ordinary, and even so, stolen pens. Overlapped papersheets, stained by drink, smoke, paint or any feminine aromatic. A key that cannot open any door. Jacket’s pockets that contains only the useless. Clothes that don’t match. A lot of letters in blue, juxtaposed on white paper, on brown paper, to wrap up bread; useless proofs of badly printed pictures, ruled sheets detached from student’s notebooks. Other letters typewritten now in black in old and heavy Remingtons, which are disposed on tables filled with meaningless objects, full of fatty material and grease, disform sticks, incense, overflowing ashtrays, dust and fur, a lot of cat’s fur, togas and drops. Other tables with poorly-closed, dirty drawers, spotted by dried paint and clogged with prosaic objects. Now on the radio, new words that it drags to the sea―to this sea’s bottom, where a spider just wants to sleep. The Sargasso Sea.

Daniel’s manuscripts put together the odd ones, the singular ones, the averse ones; the common word has place only in ailing, febrile phrase, transformed in pulling-the-trigger word. To capitalism it offers the noble trade of bread-making; right after sticking its tooth like a word’s predator, it caresses the grandma’s bald head. By night, Daniel walks alone in the streets, among manuscripts, but by dawn he’s ready to hold the first good cause he meets. Las madres, los viejos, los niños, those who have no name―they all will be taken care of in his dreams of vigil. An urban poet of collective friction, an aware observer of history’s cloaca, of old buildings and theirs sharp, pointy  angularity, doors, counters, latrine and sawage. The nature trated by his poetry is just the civilization’s edge, the humanity’s frontier; the dead turtle in the beach serves as a Buñuel’s table; the poet walks into these suburbs of soul seeking what remained of the being. The flowers of a desolated Buenos Aires. “But one who hear us doesn’t hear our voice. One hears our words. And then loses oneself on the labirynth of language.” Daniel follows a rough, acid track, opened up by poets like Arthur Rimbaud and Antonin Artaud. This path is crystalline and incandescent in the text Flor sobre tronco inmóvil―“un puñal que atravesó el corazón de la poesía”.

His recent publication, O Outro Mar [“The Other Sea”], a work with only ninety-nine pages, contains a lot of the poet’s life, in a complex and multiple texture. His poetry, his parents, his cats, the prose, the friends, four other poets translated, his dive in las madres, his desertion from military service, Florianopolis, Buenos Aires, the river, the sea, his flight on the radio, the sound of his piano, the shared wine, the splitted bread. A body in form of book―organic, moving; its reading reproduces in us the lights of physiology; inspires (poem), expires (prose), chews (word), salivates (metaphor), swallows (picture), vomits (history), spits (reality), sniffs (city), weeps (sea), and in the heart (love and courage). A book that lets us unsettled because it tights our skin and stresses our muscles.

I found in his poetry an extreme and singular ethics on treating a text, denying certain words, rescueing many others. Daniel is a moralist in the sense defined by Jean Genet: libertarian, but conscious that we have nothing to set us free of. Our tragedy is circular. Its long and curse fingers, as well as its body standing over the paper or the piano, perform with accuracy the task of sacrificing everything that is not as heavy as the sea.

O mar de Jayro

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Limite de Mário Peixoto

 

Jayro Schmidt publicou quarenta microensaios reunidos em um livro eletrônico, chamado “A linha da água marinha”, dirigido aos que não forem incrédulos.

O mar segue sendo uma das nossas principais obsessões, nossa civilização nasce em ilhas, Ulisses é a síntese do verbo navegar, enquanto a terra é nosso corpo e nossa dor em vida, o mar nos acolhe e alivia em nossa morte. O mar será nossa última fronteira.

Lendo e escavando os quarenta microensaios encontro uma linha que os transpassa a todos. Algo que particularmente é minha maior ligação com o mar: o som ou sua ausência. Quem já permaneceu durante muitas horas em uma embarcação de madeira, fundeada em alto mar, escutando os golpes leves do seu balanço sob o casco, sabe do que estou falando. Os sons ou sua ausência, na distância desta imensidão, sob ou sobre a linha da água é capaz de nos transportar para um campo insólito.

Como armadura, deste corpo sonoro que encontro no texto de Jayro, está o ofício original do poeta: tornar visível, pressentir um movimento inexistente, intuir a forma no conteúdo, ver na sombra, ouvir no silêncio. “A linha da água marinha” executa este ato com precisão cirúrgica, singular, buscando incondicionalmente, o que para mim é fundamental na construção de um texto, a visada da totalidade.

Dos quarenta microensaios vinte e nove falam de sons e onze de sua ausência. “Sem nenhuma preocupação com a verdade”.

Os sons estão na vibração de barbatanas dos peixes voadores, no segredo das vogais, podemos desvelar o mistério através do som ao quebrar o graveto, colocando um concha no ouvido, atentos aos beirados musicais que a chuva de bulha funda, soletrando os nomes das plantas, na lembrança do leque de silêncio que se abre, ao imaginar a décima sinfonia nunca executada, na língua salivada de Sherazade que não cessa, nas palavras que nomeiam o que falta, a loucura que provoca grunhidos, escutando a palavra que não soa bem ou a sombra que fala, no varejar de uma mosca, intuindo o segredo sibilado, meditando na língua canônica, acreditando na promessa de relâmpagos, acompanhando as palavras como gatos, o som da pedra que mata um homem, revelando ao foguista o que acabara de ver, lendo um monólogo, dizendo os dias da velhice, escutando o som do suspiro sobre a geladeira, percebendo que toda frase oracular é cera derretida, lendo um claro versículo ou a língua da pluma, concentrado para ler os lábios que sussurram, procurando a palavra na escuridão, compreendendo alguém que diz não ter nome para dizer.

Nas ausências Jayro busca outros sentidos, além de revelar um pouco mais do processo poético, do seu desejo ao reunir palavras, acariciando-as como um amante experiente, abrindo o único caminho para a sua transfiguração. No sétimo microensaio aparece a primeira ausência quando entra no campo dos sentidos o tato, a mão sobre os espinhos e a lacraia, em seguida quando se perde o falo místico é no colo/mar o local do descanso, o poema vê o que não estamos vendo, o desabrigo ou abrigo diferem quando podemos ver o que não era, no vigésimo terceiro microensaio aparece o fio de água tênue e permeável – título do livro – que significa simultaneamente uma separação brutal de elementos e sua absoluta interação, aqui está a ponto da totalidade, morre o que faltava morrer e jamais vereis o que vi, com outro nome não imaginei na escuridão o construtor anônimo, chamado Hiram apagando as chamas das labaredas com seu chapéu.

Este é um traçado que encontrei e percorri ao ler “A linha da água marinha”. Muitos outros existem, procure o seu em http://issuu.com/alinhadaaguamarinha/docs/a_linha_da___gua_marinha.1

Quando nasce um livro, morre o autor, mas nasce também um leitor.

Jayro’s Sea

Jayro Schmidt has published forty microessays reunited in an e-book called A Linha da Água Marinha [“The Marine Water’s Line”], directed to those who are not nonbelievers.

The sea keeps on being one of our principals obsessions; our civilization borns in islands, Ulysses is the syntesis of the verb “to navigate”; while the land is our body and our pain in life, the sea embraces and relieves us in our death. The sea is going to be our last border.

In reading and digging the forty microessays, I find a line the transpasses all of them. Something that is particulary my greatest link to the sea: the sound ou its absence. Those who have stayed during many hours aboard a wooden vessel, anchored in high seas, listening to the gentle blowing of the sea under the hull, know what I’m talking about. The sounds or their absence, in this immensity’s distance, under or on the waterline, is able to transport us to an unusual field.

As an armor of this sonorous body that I find in Jayro’s text, is the poet’s original craft: to make visible, to foresee an inexistent moviment, to intuit the form in the content, to see in the shadows, to hear in the silence. A Linha da Água Marinha performs this with extreme, singular precision, unconditionally seeking the overall view―what is fundamental for me in the construction of a text.

Of the forty microessays written, twenty-nine are about sounds and eleven are about their absence. Without worrying about the truth.

The sounds are in the vibration of the flying fish’s fins, in the vogal’s secret; we can unveil the mystery through the sound of a breaking stick, by putting a shell close to the era, aware of the musical edge that the row rain makes, spelling names of plants; in the memory of silence’s range that opens up imagining the never executed tenth symphony; in Sherazade’s salivated tongue  that does not stop; in the words that give name to what’s missing; the madness that provokes grunts, listening to the word that doesn’t sound good or to the shadow that speaks; in a fly’s buzz, sensing the sibilated secret, meditating on the canonical language, believing on the promisse of thunders, following the words like cats; in the sound of an stone that kills a man, revealing to the fireman what he just saw, reading a monologue, telling the days of old-age, listening to the sound of the breath on the freezer, perceiving that every oracular phrase is melted wax, reading a clear versicle or the pen’s language, concentrated on reading the whispering lips, searching for the words on darkness, understanding someone that says that doesn’t have a name to be called by.

In absences, Jayro seeks for other senses, besides revealing a little more than the poetic process of his desire to brought words together, caressing them as an experient lover, opening the only way to its transfiguration. On the seventh microessay, the first absence shows up when it enters the field of senses the touch―the hand on the thorns and the centipede, and after, it’s in the lap/sea the rest local when the mystical phallus is lost; the poem sees what we’re not seeing; the unexposed or exposed differ on what we are able to see that wasn’t; on the twentieth third microessay appears the fine and permeable waterline―the book’s title―, which signifies simultaneously a brutal separation of elements and its absolute interaction. Here’s the totality point; dies what was left to die and thou shalt not ever see what I saw; I have never imagine in the darkness the anonymous constructor with other name, called Hiram, turning off the flames with his hat.

This is the path I went through by reading A Linha da Água Marinha. Many others exist; search for yours in http://issuu.com/alinhadaaguamarinha/docs/a_linha_da___gua_marinha.1.

The author dies when a book is born; but also borns a reader.