Elas e Eles. Eu e o Outro.

Sorrow_Fotor

Sorrow de Vincent van Gogh

A força física aplicada sobre a matéria, por vezes passiva, por outras nem tanto, sempre foi nosso ofício e obsessão. Este sentido de dominação atávica em muitos casos significou transformação ou mesmo sublimação. O ser humano tornou-se um sobrevivente a partir da instrumentalização desta força muscular, nos permitindo, em uma visão superficial, superar a própria matéria dominada. O que não é absolutamente verdade.

A técnica aplicada à força física a potencializou com inteligência e ambição. Mas é importante reconhecermos que este potencial original, que nos garantiu a sobrevivência, desdobrou o suor e o sangue através da ciência, em armas e outras ferramentas de poder. Agora já não mais visando o domínio do humano sobre a natureza, mas do humano sobre o próprio humano.

Portanto o que permanece ressoando por trás das nossas ações estratégicas, intelectuais ou mesmo tecnológicas, para ampliarmos nosso poder, seja econômico, político, territorial ou social, ainda é nossa força física. Trata-se sempre do mais forte subjugando o mais fraco, superficialmente falando.

A realidade por trás de nossa civilidade ainda reflete a necessidade de subjugar, de dominar, de eliminar aquilo que nos impede o caminho direto para a realização de nossos desejos mais inconfessáveis.

O respeito por aquilo que se demonstra mais fraco, em nossa sociedade, ainda é muito incipiente e invariavelmente confundido com uma espécie de ingenuidade desprezível.

Mesmo nos níveis mais leves, se é que podemos colocar desta forma, onde o adulto se impõe à criança, ou um superior hierárquico aniquila seus subordinados, ou mesmo quando um homem e sua massa muscular intimida a mulher subjugada, podemos ler com clareza a presença daquele corpo ancestral sedento por conquistas, por dominação, por invasão, enfim por violação.

O humano atual esconde ainda sob sua pele um outro homem antigo feito apenas de músculos, sangue, suor e instintos, que se revelam, mesmo em suas ações mais refinadas e sutis. Vamos a alguns casos concretos que fazem estremecer a estrutura mais insensível.

Como poderemos explicar o comércio e estupro sistemático de mulheres e meninas da minoria religiosa yazidi, nas áreas tomadas pelos Estado Islâmico sob o argumento da permissão religiosa que as entende como infiéis? Mais de 5 mil delas foram sequestradas no ano passado. Tornaram-se escravas sexuais em nome de Deus. Passagens da bíblia e do alcorão são utilizadas para justificar estas atrocidades. Inacreditavelmente estudiosos dos textos sagrados, perdem um tempo precioso, discutindo questões semânticas, tentando justificar ou condenar estas atrocidades. Penso que no fundo deste imenso poço de lama e sangue, a única forma capaz de brotar é uma ferocidade muscular que nada respeita. Não há religião, tampouco luta social, menos ainda fé em algum código ético ou cultural. Apenas uma utilização da matéria, do corpo, como massa amorfa, sem nenhum caráter espiritual, visando saciar um imenso vazio, um grande nada.

Já no Sudão do Sul o próprio governo autoriza as chamadas forças de segurança – homens com uniformes militares, com fuzis nas mãos, sobre carro de guerra ou camionete, imagens que já não suporto mais ver – a cometer abusos em massa, entre eles violência sexual e assassinato como forma de “salário”, se é que conseguimos compreender tal acordo. Em cinco meses foram registrados mais de 1.3 mil estupros em apenas um dos dez estados do país. ”Trata-se de uma situação de direitos humanos entre as mais horríveis no mundo, com uma utilização em massa de violações como instrumento de terror e como arma de guerra”, afirmou o alto comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein.

Como entender mais de 48 mil estupros por ano no Brasil? É estarrecedor? Estarrecedor é saber que apenas 15% dos casos são denunciados, portanto, podemos chegar ao incrível número de meio milhão de mulheres e crianças estupradas por ano em nosso país. Estamos falando de um país com todas as instituições funcionando, vivendo com sua democracia representativa e garantias individuais em ordem, quem o percorre diria que tudo está bem e nossos dias transcorrem dentro da normalidade (embora muitos afirmem que vivemos uma guerra civil há muitos anos).

Mesmo a India com toda a sua tradição espiritual, abriu uma enorme ferida social permissiva, onde bandos de homens estupram meninas a luz do dia, dentro de ônibus, como se fosse uma atividade cotidiana.

Porém, não gostaria de reduzir a questão do estupro a uma perspectiva apenas de gênero, ou mesmo sexual entre homens e mulheres. Retomo meu raciocínio inicial afirmando, é a força física ancestral que está na base das violações, é um desejo de aniquilação, de subjugação do outro. E desse ponto de vista é deprimente vermos que na medida que avançamos jurídica, social e tecnologicamente, os estupros nos acompanham e se adaptam às novas realidades, como vem acontecendo em redes sociais, em nossas fronteiras físicas e mentais, nos ambientes privados, ou mesmo coletivos. Estupros cometidos através de estruturas mentais, econômicas, sociais, tecnológicas, sempre buscando reduzir “o outro” a condição de nada.

Em qualquer âmbito onde o respeito às diferenças aparece como sol, essa sombra perversa se dilui em nossa humanidade.

 

They and the others. The other one and me.

The physical force applied on the matter, sometimes passive, sometimes not so, always have been our task and our obsession. This sense of atavic domination meant, in many cases, change or even sublimation. The human being became a survivor through the instrumentalization of this muscular force, which, in a superficial view, allows us to overcome the dominated matter itself. Which isn’t true at all.

The technique, allied to the physical force, potentialized the last one with intelligence and ambition. But it’s important for us to recognize that this original potential, that provided survival, has overlapped sweat and blood through science, in guns and other tools of power — not intending the human’s domination of nature anymore, but the human’s domination of the human himself.

Therefore, what remains resounding behind our strategic, intellectual or even technological actions, for us to expand our power — that being economical, political, territorial or social —, still is our physical force. It is always about the stronger subjugating the weaker, talking superficially.

The reality behind our civility still reflects the necessity of sub judgement, of domination, of eliminating the things that prevent the direct way to the fulfillment of our most unspeakable desires.

The respect for what demonstrates itself as a weaker self, in our society, is still much incipient and invariably mixed up with some kind of despicable naivety.

Even in the smoother levels, if we can put this way, where the adult imposes himself to the child, or an hierarchical superior annihilates his subordinates, or even when a man with his muscular mass intimidates the subdued woman, we can clearly see the presence of that ancestral body hungry for conquest, domination, invasion, and at last for violation.

Yet, the current human hides under his skin another ancient man made only by muscles, blood, sweat, and instincts, that reveal themselves even in his most refined and subtle actions. Let’s see some concrete cases that make even the most insensible structure shudder.

How can we explain the commerce and the systematic rape of women and girls from the religious minority Yazidi in the areas taken by the Islamic State under the argument of religious permission that take them for infidels? More than 5 thousand of them were kidnapped in the last year. They have become sexual slaves in the name of God. Excerpts from the Bible and the Koran are used to justify these atrocities. Incredibly, researchers of the holy books lose a precious time discussing semantic questions, trying to justify or to condemn theses atrocities. I think that, at the bottom of this immense hole of mud and blood, the only life form capable of blooming is a muscular ferocity that respects nothing. There’s no religion, neither social fight, nor faith in some ethical or cultural code. It’s just use of the body’s matter, as an amorphous mass, without any spiritual character, trying to satisfy an immense emptiness, an immense nothing.

In South Sudan, the government itself authorizes the so-called security forces — men in military costume, with fusils in hands, on war cars or trucks, images that I can’t bear to see anymore —   committing mass abuses, between them sexual violence and assassination as a form of “payment”, that is if we can comprehend that arrangement. In five months, more than 1,3 thousand rapes were registered in only one of the ten states of the country. “This is one of the most horrendous human rights situations in the world, with massive use of rape as an instrument of terror and weapon of war”, said Zeid Ra’ad al-Hussein, the U.N.’s high commissioner for human rights.

How are we supposed to understand more than 48 thousand rapes a year in Brazil? Is it terrifying? Terrifying is to know that only 15% of the cases are reported; therefore, we can manage to arrive at the unbelievable number of half million women and children raped a year in our country. We are talking about a country with all its institutions working, living in its representative democracy and individual guarantees in order; one who passes by would say that everything is fine and that our days go into the normality (although some people affirm that we live in a civil war for long years).

Even India, with all their spiritual tradition, have opened an enormous permissive social wound, in which bunch of men rapes girls during daylight, inside a bus, like it was a daily activity.

However, I wouldn’t like to reduce the rape question to a perspective of genre only, or even a sexual one between men and women. I go back to my initial thought, affirming that it’s the ancestral physical force that is the base of violations, it’s a desire for annihilation, for subjugation of the other. And from this point of view, it’s depressing to see that, as we progress in law, society and technology, the rapes follow us and adapt to the new realities, as it’s occurring with the social networks, in our physical and mental borders, in the private ambients and even in the collective ones. Rapes committed through mental, economic, social, technological structures, always looking forward to reducing “the other” to the condition of nothing.

In every range where the respect to the differences appears like the sun, this perverse shadow is diluted in our humanity.