Sociedade crítica ou abaixo da crítica?

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ITALY. 1955. Bernhard BERENSON

Um dos efeitos mais trágicos da revolução industrial, para nossa sociedade, foi o gradual afastamento, e consequente alienação, entre o consumidor e o objeto consumido.

Quanto mais elaborados e complexos estes objetos são, mais distante está sua lógica daqueles que o consomem. Um moedor de café manual, mecânico fazia um sentido corporal, físico e mental para quem o utilizava como, da mesma forma, sentido completo fazia a utilização de um arado.

Estes objetos estavam completamente apreendidos por seus usuários. Eles compreendiam sua mecânica, sua força aplicada, um eventual conserto de suas peças, de suas engrenagens e alavancas.

Na medida em que a eletrônica invadiu a produção, os objetos, grande parte dos consumidores foram afastados da lógica de funcionamento das coisas, ficando assim reduzidos ao seu resultado ou benefício viciante e sedutor. O consumo cria então uma espécie de encantamento, de mágica fazendo com que os primeiros usuários procurem atrás da TV a pessoa que aparece em sua tela.

Este encantamento, com a revolução tecnológica digital, se aprofunda, o distanciamento entre consumidor e objeto consumido se potencializa no conceito do plug and play.

Hoje, ao encantamento soma-se uma dependência viciante, sem que a grande maioria dos usuários tenham a mais remota ideia de como as imagens se compartilham, como estou falando em áudio e vídeo com o outro lado do planeta, como as redes sociais reconhecem meu perfil, hábitos, comportamentos e deslocamentos por um mapa virtual construído por nosso telefone.

Passamos grande parte dos nossos dias compartilhando, baixando, registrando, comentando, apenas digitando e tocando em teclas virtuais, sem saber exatamente como tudo isso funciona.

É claro que não precisamos todos saber profundamente sobre algoritmos, sobre ondas via satélite, sobre redundância, sobre nanotecnologia, ou mesmo como responde um touch screen para utilizarmos nossos aparelhos mágicos, como da mesma forma, não sabiam nossos ancestrais sobre combustão, quando acenderam o primeiro fogo.

Mas a minha pergunta é: se desde o homem do Cro-Magnon desenvolvemos nosso cérebro através de tarefas conjugadas entre nossos sentidos e os objetos que manipulamos, por que nos afastamos tanto da natureza que nos cerca e nos serve, mesmo sendo esta natureza virtual e tecnológica?

Se estamos apenas nos servindo de “coisas” que nos satisfazem, como dependentes de um opiáceo que nos alivia as dores do dia a dia, entramos em uma armadilha da qual não teremos capacidade intelectual e emocional para sair.

O respeito dado por um homem ao pano que tecia e que posteriormente se transformaria em sua roupa, advinha exatamente da capacidade de valorar o seu trabalho e o tempo destinado ao ofício. Esse sempre foi o respeito pelo esforço de transformação da matéria em conforto, seja material ou espiritual.

Por outro lado, se não conseguimos fazer uma leitura crítica, nem mesmo sobre as ferramentas que utilizamos em nosso cotidiano, como poderemos ter uma postura crítica sobre nossa ética, sobre as relações sociais, de poder, ou mesmo espirituais?

As opiniões e comentários “críticos” que vemos hoje nas redes sociais, feitos por grande maioria dos internautas, me parecem fruto desse descompromisso com as coisas e as pessoas.

Poderíamos chamar de uma verdadeira coisificação daquilo que eu não respeito, daquele que desconheço. Com relação aos objetos não respeito porque são indecifráveis e descartáveis, com relação aos outros não respeito porque são insignificantes e diferentes (não sou eu). Resultando daí como consequência prática os estupros, as fobias e os preconceitos.

Esse estado esquizofrênico individual está nos levando a uma morbidez coletiva onde o senso crítico, que sempre nos fez caminhar, está sendo reduzido a um senso destrutivo e paralisante.

 

A critical society or a society beneath criticism?

One of the most tragic effects of Industrial Revolution to our society was the gradual distance (and its consequent alienation) put between the consumer and the consumed object.

The more elaborate and complex these objects are, the more distant is their logic to the ones that consume them. A manual, mechanic coffee grinder used to make a corporal, physical, and mental sense to the one who used it, in the same way that the use of a plow used to make a complete sense.

Those objects were completely seized by their users. They understood the mechanics, the applied force, the eventual fix of their parts, of their gear and crowbars.

As the electronic invade the production of the objects, a large part of the consumers were pulled out of the functional logic of things, remaining thus reduced to the result or addicting and seductive benefit of products. The consumer creates then a sort of enchantment, of magic, making the first users seek beyond their televisions the people that appear on their screen.

That enchantment, with the digital and technological revolution, gets deeper and deeper, the distancing between the consumer and the object gets potentialized by the concept of “plug and play”.

Nowadays, in addition to the enchantment, there is an addicting dependence, with the great majority of the users not even knowing how the images are shared, how it is possible to talk in live stream audio and video to the other side od the world, how the social media recognize my profile, my habits, my behavior and the moves through a virtual map built by our cell phones.

We spend a great part of our days sharing, downloading, recording, commenting, only typing and touching virtual keys, without knowing exactly how these things work.

Of course, we don’t need to have a deep knowledge of algorithms, on satellite waves, on redundancy, on nanotechnology, or even on how a touch screen works to use our magic gadgets; in the same way, our ancestors didn’t know anything about combustion when they’ve lightened the first fire.

But my question is: if since Cro-Magnon Man we have been developing our brains though conjugated tasks of senses and the objects we manipulate, why do we moved so far from the nature that rounds and serves us, even if it is this virtual and technological nature?

If we are only serving ourselves of “things” that make us satisfied, like dependents of an opiates that alleviate the pains of everyday life, we enter into a trap which we won’t be able, both intellectually and emotionally, to escape from.

The respect given by a man to the piece of cloth that he weaves, which later would become his clothes, had come precisely from the capacity of evaluating his work and the time invested in his job. This always was the respect for the effort of a transformation of matter to comfort, that being a material or a spiritual one.

On the other hand, if we can’t produce a critical view, not even on the tools that we use in our day to day lives, how can we have a critical view on our ethics, on our social relations, on power or even spiritual relations?

The “critical” opinions and comments we see nowadays on the social media, made by a great majority of internet users, seem to me a result of that lack of compromise with people and things.

We could call it a true objectification of what I disrespect, of what I don’t know. In what concerns the objects, I don’t respect because they’re indecipherable and disposable; in what concerns the others, I do not respect because they’re insignificant and different (they are not me). As a consequence, the results are the rapes, the phobias, and the prejudices.

That schizoid individual state is leading us to a collective morbidity, in which the critical sense, that has always made us move, is being reduced to a destructive and overwhelming sense.