A linha em si

 

Jorge Luis Borges disse que o sonho é a nossa primeira experiência estética. Talvez a linha desenhada tenha esta mesma primazia para o homem que sonha acordado. O desenho é nossa arte mais antiga, nos acompanha desde a infância da alma no fundo de uma caverna original. A linha é nosso pensamento em toda a sua pureza, leveza e simplicidade. Ela é a extensão do braço, da mão, definindo as letras que grafam os sons das palavras, os signos que constróem a memória no plano da imanência.

A arte do desenho é ainda mais solitária e introspectiva do que a da pintura, já que o desenho, como processo expressivo, é escavação, é um caminho para dentro e a pintura é explosão, um campo que se expande na direção do observador. O desenho suga, absorve. A pintura inunda, envolve. O desenho é osso, a pintura é carne.

Desde as linhas dos bisontes, passando pelos arabescos persas, a caligrafia e os ideogramas orientais, as volutas arquitetônicas, as vinhetas tipográficas, as linhas libertarias de Jackson Pollock, o desenho vem construindo e corporificando a imagem que temos do mundo.

O desenho é essa imagem projetada no espaço com todas as suas dimensões e significados. E a linha, que é a imagem em si mesma, não necessita de mais nada, nenhum artificio, para falar aos nossos olhos. O traço único e raro é aquele que contém toda a expressividade do que a mão tentou captar. Portanto toda a força visual da linha deve se desdobrar em seu próprio limite, através da mão hábil que imprime mais ou menos carga no traço, tornando-a pesada como o rochedo ou leve como as folhas ao vento.

Um segmento de linha já deve ser em si mesmo um corpo, rico, complexo, com suas variações tonais, mudanças de espessura e textura, com suas curvas suaves ou mesmo angulações mais agudas, porém quando a linha se fecha sobre si, torna-se um campo e reconstrói o espaço circundante. A partir deste momento a dimensão do desenho ganha outros atributos, como volumetria, perspectiva, etc. Elementos que já não tem ligação tão forte com a fonte original da linha. Muitos artistas somente percebem importância no desenho a partir deste momento, em que o desenho passa a representar uma ideia externa e, portanto perdem o que o desenho tem de melhor: a força de sua linha pura.

Alguns nos deixaram rastros e traços essenciais para a compreensão do ofício de expressão através da linha.

Jackson Pollock reinventou o dripping possibilitando a liberdade do seu gesto e impedindo qualquer forma de suspensão ou quebra do seu movimento corporal. Um  corpo que desenha.

Jean Baptiste Camille Corot nos dá uma lição de como representar a paisagem sem perder a vitalidade de todas as linhas do desenho. Conseguimos ver o vento e o movimento da cena através dos traços únicos e precisos de sua mão.

Vincent Van Gogh desenhava com lápis de carpinteiro, com seu grafite duro e pobre, porque não lhe interessava a maciez e a riqueza de outros grafites para expressar sua alma e a daqueles que representava.

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Pollock

 

The Line [in] Itself

 

Jorge Luis Borges said that the dream is our first aesthetic experience. Maybe the drawn line has that same primacy to the man who dreams awake. Drawing is our oldest kind of art, and it follow us from the childhood of the soul in the bottom of an original cave. The line is our thought in all its purity, lightness, and simplicity. It is the extension of the arm, the hand, defining the letters that mark the words sounds, the signs that build memory in the plan of immanence.

The art of drawing is still more solitary and introspective than it is the art of painting, since the draft, as an expressive process, is excavation, an inwards path, while painting is explosion, a domain expanding towards the observer. The draft sucks you in, absorbs you. The painting deluges, involves you. Drawing is bone, painting is flesh.

Since the bisons’ lines ― going through the Persian arabesques, the Asian calligraphy and ideograms, the architectural scrolls, the typographic vignettes, the Jackson Pollock’s libertarian lines ―, the art of drawing builds and vivifies the image we have from the world.

The drawing is this image projected in the space with all of its dimensions and significances. And the line, that is the image in itself, does not need anything else, no artifice at all, to speak to our eyes. The unique and rare trace is the one that contains all the expression of what the hand tried to catch. Therefore all the line’s visual force must unfold in its own limits, through the skillful hand that prints more or less pressure on trace, making it as heavy as large rocks or as light as leaves in the wind.

A segment of line is itself a rich, complex body, with its tonal variations, its changes in thickness and texture, with its subtle curves or even its sharpest angles. But when the line closes on itself, it becomes an area and rebuilds the entourage. From this moment on, the drawing’s dimension gains other attributes, like volume, perspective, etc. ― elements that have no longer a strong link with the line’s original source. Lots of artists only realize the importance of the drawing from this moment, when it starts to represent an external idea, and, this way, they lose what is best in drawing: the force of its pure lines.

Some artists have left trails and traces that are essential to the understanding of the art of expression through the line.

Jackson Pollock reinvented the “dripping” technique, making it possible for his gestures to be free and preventing any form of suspension or break in his body moves. A body that draws.

Jean Baptiste Camille Corot gives us a lesson on how to represent landscape without losing the vitality of all the drawing’s lines. We can see the wind and the movement of the scene through his hand’s unique and precise traces.

Vincent Van Gogh used to draw with a carpenter’s pencil, with its hard and poor graphite, because it didn’t matter to him the softness and the richness of other kinds of graphite in order to express his soul and the souls of those he had portraited.