O que nos olha

unadjustednonraw_thumb_aec

A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O Grande Vidro. Exposição de Marcel Duchamp no Centro George Pompidou, Paris 2014.

Toda a sombra ao se espalhar sobre a terra encobre as imperfeições, alivia o calor, gera a umidade, protege o infante, ou mesmo esconde o crime.

O plano opaco, rugoso e tenso recebia, em outras eras, a tinta andrógina da pintura, não como ofício da sombra, mas como desejo da carne e da pele. O corpo visual se formava na fusão das cores, vernizes, solventes. A massa pastosa deitada sobre o algodão recebia sobre si camadas sobrepostas, veladas, reveladas, justapostas, fixadas através da oxidação permanente no plano branco e passional. Como o chão da floresta recebe suas folhas outonais ou a morte animal e em idêntica perspectiva aguarda a mãe que abre seu ventre para acolher os restos do filho devorado pelo pai, para quem sabe um dia, fazê-lo renascer.

Este foi o destino da pintura até o Grande Vidro de Duchamp.

“A inelutável modalidade do visível” de J. Joyce sofre uma dobra ou dobramento nesta obra de Marcel Duchamp, construída entre 1912 e 1923. Para muito além dos “moldes málicos”, dos “moedores de chocolate”, dos “vasos comunicantes”, a obra ganha o vazio, o espaço aberto, a visão total espaço circundante. O trabalho de Duchamp não está mais no espaço, ele agora é o espaço, ele insere a luz, o reflexo, a presença, a ausência.

Lembrando de George Didi-Huberman, frente ao Grande Vidro, o que vemos é exatamente o que nos olha.

 

What stares at us

 

In sparing itself over the earth, every shadow covers imperfections, relieves the heat, creates humidity, protects the child, or even hides the crime.

In other eras, the opaque, wrinkled, and tense plan used to receive the androgynous tint of the painting, not as a trade of the shadow, but as a desire of the flesh. The visual body used to be formed in the fusion of colors, polish, solvent. The viscous mass laid over the cotton used to receive overlapped layers ― hidden, revealed, juxtaposed, fixed through the permanent oxidation on the blank and passionate plan. Like the forest ground receives its autumn leaves and the animal death, and in identical perspective awaits the mother that opens up her womb to host the remains of the son devoured by the father, so that maybe someday she will make him be born again.

This was the destiny of painting until Duchamp’s “Large Glass”.

James Joyce’s “Ineluctable Modality Of the Visible” suffers a bending in this work of Marcel Duchamp, built between 1912 and 1923. Way beyond the “malic molds”, the “chocolate grinders”, and the “communicating vases”, the work gains the void, the open space, the total vision of the surrounding area. Duchamp’s work isn’t in space anymore: now it is the space, it inserts the light, the reflection, the presence, the absence.

And to remember George Didi-Huberman, in the face of The Large Glass what we see is exactly what stares at us.

Um comentário sobre “O que nos olha

  1. Pingback: O tempo da arte | of

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s