A ciência e a verdade

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O caráter científico  do mundo contemporâneo tem uma sólida base de apoio em René Descartes 1596/1650, filósofo, físico e matemático francês, que com seu nome grava a ferro e fogo o conceito popular “cartesiano” em toda a sua posteridade européia e com o passar dos anos na sociedade global.

O cartesianismo ocupou com naturalidade a mente do homem pós-renascentista que desejava explicações para sua existência, que fossem além do obscurantismo católico. Esta guinada brusca, da sociedade em 1500 anos de história ocidental, provoca um afastamento e enfraquecimento gradual da arte, da poesia e da espiritualidade do núcleo de nossa humanidade. Nosso devir passa a ser refém da ciência que arrasta um enorme e pesado lastro, necessário ao seu desenvolvimento, chamado consumo.

Subjugados por essa equação autofágica, hoje acreditamos apenas nos números frios, pesquisas, testes de laboratório, tratados científicos, especialistas, aquilo que podemos comprovar através da química, física e estatística.

Estamos distantes das nossas emoções e sentimentos, do respeito e da compreensão elevados pelo senso de alteridade, estamos distantes da poesia que diz, conforme Octavio Paz: “meu eu és tu”.

Praticamos uma ética obliqua e obtusa, que busca “compartilhar” – palavra do momento – majoritariamente o que temos de pior.

Portanto não entendo o espanto da sociedade quando um médico (com seu jaleco branco) “compartilha” o sigilo médico e o prontuário de seu paciente, em função de um ódio cego. Me escapa a lógica da indignação quando um advogado (em seu terno irretocável) leva para dentro de uma prisão armas ou drogas para seu cliente. Por que se irritar quando um policial (fardado) libera um marginal em flagrante em troca de parte do crime?

Estamos em uma encruzilhada. O que até pouco tempo parecia romanticamente vantagens competitivas ou estratégias em uma selva capitalista, hoje atinge a todos nós mortalmente à luz do dia, na contra mão, dentro de nossas casas, nos hospitais, nos tribunais, nas igrejas, nas escolas de nossos filhos.

Compreenderemos rapidamente que a ciência apenas já não nos basta para convivermos melhor com o mundo. Não serão suficientes as estatísticas que nos indicam o melhor caminho para termos mais saúde. Não importará sermos atendidos por profissionais dentro de seus uniformes assépticos, se não encontrarmos no seu interior mais civilidade.

A força gravitacional científica que nos atrai inelutavelmente neste momento específico da nossa história, deve perder sua centralidade absoluta a partir da tomada de consciência da nefasta hegemonia. Somos mais do que ciência. Somos aparência e essência, imanência e transcendência.

SCIENCE AND TRUTH

The scientific character of the contemporary world finds a solid base in René Descartes (1596- 1650). This French philosopher, physicist, and mathematician had his name fire engraved in the popular concept of “cartesian,” which went throughout the European posterity and further, in the global society.

Cartesianism has occupied with naturality the post-renaissance men’s mind, that wanted his existence explained beyond the Catholic obscurantism. This sudden turn of society, in 1500 years of Western history, provoked a gradual distancing and weakening in the arts, in poetry and in spirituality in our humanity’s core. Our future then became the hostage of a science that drags with it an enormous and heavy trail called “consumption,” which is necessary for its development.

Subjugated by this self-consuming equation, today we believe only in cold numbers, research, laboratory tests, scientific data, specialists, in things we can prove through chemistry, physics, statistics.

We are far from our feelings and emotions, far from respect and understanding raised by the sense of otherness. We are far from the poem that says, according to Octavio Paz, “you are my self.”

We practice an oblique and obtuse ethic that seeks to “share” — the word of the moment — mostly the worst in us.

Therefore I don’t understand society’s astonishment when a doctor (in his white coat) “shares” the medical confidentiality and his patient’s medical records because of a blind hatred. It escapes me the logic of indignation when a lawyer (in his impeccable suit) brings guns or drugs to his client in the prison. Why should we get angry when a police officer (wearing his uniform) releases a delinquent caught in flagrant in exchange for a part of the crime?

We are at a crossroads. What, not long ago, romantically seemed to be competitive advantages or strategies in a capitalist jungle, today strikes all of us dead in daylight, into oncoming traffic, inside our houses, in the hospitals, in the courts, in the churches, in our children’s schools.

We will quickly understand that science only is not enough anymore for us to live a better life with the world. The statistics that shows us the best way to get healthier won’t be enough. It won’t matter

if we are attended on by professionals in their aseptic uniforms if we can’t find civility in them anymore.

The gravitational force of science that inevitably attracts us in this specific moment in our history must lose its absolute centrality by the time we raise our consciousness about the harmful hegemony. We are more than science. We are appearance and essence, immanence and transcendence.

2 comentários sobre “A ciência e a verdade

  1. Pingback: A ciência e a verdade | of

  2. Os gênios estão desaparecendo e não são renováveis ‘ vamos ficando mais pobres ‘ e desejando ainda ter o privilégio de ver os grandes artistas ‘ mas eles se foram.

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