Intolerância e estagnação

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Imagem retirada do site bulevoador.com.br

Ainda não superamos a eleição de 2014. O Brasil dividido, o Brasil radicalizado, o Brasil intolerante, esse Brasil resiste e permanece crescendo com o fermento da ignorância e do ódio.

Não tenho dúvidas sobre a origem deste vulcão que vem ensaiando uma grande explosão já há alguns anos. Não tenho dúvidas também sobre a manipulação que muitos e poderosos atores, neste grande cenário, exercem sobre inocentes úteis tratados como manada. Mas na origem deste vulcão estão os séculos de abismo social mantidos no Brasil, como país periférico que é, sempre a serviço dos poderes maiores, externos e internos. Abismo este que alimentou silenciosamente, nas sombras, muito ódio, muita frustração, muita revolta.

As pessoas estão todos os dias, seja em família, no trabalho, nas ruas, ou mesmo nos telefones celulares, se manifestando sobre todos estes assuntos como: As reformas de maneira geral, seja da previdência, seja trabalhista, seja política; discutem a importância dos sindicatos; discutem lei anticorrupção, lei contra o abuso de poder; o país nunca discutiu tanto.

Discutiu e segue discutindo de fato?

Temos discutido ou já temos posição determinada e preconcebida em função de nosso cargo, segmento, posição social, política ou mesmo religiosa?

Me parece, por tudo que tenho lido, que os brasileiros têm hoje duas placas, uma em cada mão. Em uma mão temos uma placa escrito contra e na outra um placa escrito a favor. Estão tentando nos transformar em pessoas com apenas dois neurônios. Um para dizer sim e o outro não.

Nenhum dos assuntos, todos muito importantes, tem sido discutidos com a profundidade que merecem. Todas as manifestações tem-se dado na base do: isso me interessa (é sim), isso não me interessa (é não).

O Brasil esta tendo uma oportunidade gigantesca de se passar a limpo, de implementar importantes mudanças em nossa base produtiva, política, e cultura. Mas certamente não é apenas com intolerância e ódio que se avança. Não iremos a lugar algum apenas com o discurso de vingança. Precisamos discutir e decidir as coisas não apenas a partir da nossa ótica individual e limitada.

Cito um exemplo recente daquilo que temos de pior em nossa humanidade, e que vem ocorrendo no Brasil atual. Exemplo onde a intolerância extrapola a inteligência e o respeito pelo outro e suas ideias e atitudes. Você acompanhou o que aconteceu com Leandro Karnal em Curitiba? Não? Então leia está matéria.

Velázquez e suas meninas

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Um Diego Velázquez é vendido por oito milhões de euros. A pintura de uma niña com seu olhar distante, mas também interrogador. Ela não nos olha diretamente nos olhos, observa algo em nosso entorno e suas mãos puras pedem por algo que inquieta.

Cada retrato de Velázquez expressa vigorosamente aquilo que o pintor se propõe a estabelecer entre o retratado que olha ao observador ou mesmo o que nós observadores podemos buscar na imagem que é vista.

Diego Velázquez já foi considerado por muitos o “pintor dos pintores”, frase cunhada por Édouard Manet, além de ser considerado o maior retratista entre todos os pintores.

Não viveu uma vida conturbada, como grande parte dos grandes artistas, tampouco nasceu ou morreu pobre. Nasceu em meio a nobreza, foi sempre o pintor da corte, e por duas oportunidades viajou a Itália para conhecer os antigos mestres e respirar o berço do renascimento. Conheceu o mestre o barroco Peter Paul Rubens, além de estudar as obras de Ticiano, Tintoretto e Veronese, conhecendo todas as cores da escola veneziana. El Greco era sua obsessão.  Picasso, Dali, entre outros utilizaram suas obras como referencias para suas pinturas. Francis Bacon realizou uma série de trabalhos tendo como ponto de partida obras de Velázquez.

Seguramente a tranquilidade financeira do pintor deu a ele o tempo e a paz necessária para desenvolver sua técnica que está entre as mais requintadas da história da pintura.

Velázquez bebeu na fonte de Caravaggio e EL Greco, e serviu como caminho pictórico e expressivo para um número gigantesco de grandes artistas posteriores. Sua “Las meninas” assombra muitos artistas até nossos dias, uma pintura que reflete infinitos espelhos, perspectivas, planos e contraplanos traçados por olhares incomuns. Uma pintura que todo artista gostaria de ter executado. Uma obra onde a imagem vai muito além do que mostra, um espaço que estabelece relações transcendentes, contudo trabalha com as forças mais sólidas da imanência.

O último trabalho do artista espanhol, e que praticamente o leva a morte, simultaneamente imortaliza a “infanta Margarida da Áustria”.

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Kazimir Malévich – Cruz Branca e Cruz Negra

É indiscutível que nossas construções ancestrais: genética, imagética, sensível e finalmente o que podemos considerar como sua resultante, a ética, são estruturadas e definidas por eixos rígidos, resistentes, milenares. Esta arquitetura dos eixos originais fortalece sempre sua resultante, uma consequente polarização, seu balanço ou equilíbrio. Afinal nossa formação é de origem dupla.

É assim, inevitavelmente, que percebemos a relação de um eixo com seu espaço circundante. Todo eixo possui seus dois extremos ligados por uma força comum que une ambos, de forma equilibrada ou mesmo desequilibrada.

Nosso mundo interno e externo desde sempre foi lido a partir de uma linha de horizonte, já nascemos diante do horizonte, nossos olhos definem imediatamente o que está acima e o que está abaixo. Isso fisicamente nos coloca, eretos, entre a terra e o céu. Animais e vegetais ligam a terra, através de nossos pés/raízes, ao céu, por meio de respirações/fotossínteses.

Não podemos desconsiderar a lição simples de Novalis quando nos diz: “Toda linha é o eixo de um universo”.

Todo eixo tem seus dois extremos, mas há inelutavelmente uma ligação – perceptível ou não, visível ou não, material ou não – entre eles. Uma escala complexa se impõe entre fracos e fortes, entre pretos e brancos, entre femininos e masculinos, entre objetivos e subjetivos, entre opacos e transparentes, um “indescritível tecido de filigranas” transformando sutilmente a matéria mais pesada nas formas mais expressivas da leveza.

Ou não é assim que um enorme e pesado bloco de mármore se transformou na imagem de Davi? E o que é esse “indiscritível tecido de filigranas”, que separa a rocha bruta da escultura perfeita, a não ser a vida mesma de Michelangelo, com todas as suas contradições? Portanto entre a pedra e a imagem já havia, mesmo antes de Michelangelo, um pulso, uma carga de probabilidade, um desejo latente, nos dois extremos deste eixo. No seio da pedra bruta e na imagem projetada de Davi, estes dois extremos aguardavam por uma mão que os desvelassem em sua unidade. No meio do percurso havia um Davi em pedra.

Mas deveríamos ter desde cedo aprendido algo fundamental: estes extremos fazem parte da mesma história, tem a mesma origem, são sempre faces da mesma lâmina, trama e urdidura do mesmo tecido, pó da mesma terra, partículas do mesmo ar, imagens do mesmo corpo, ideias das mesmas mentes.

Em milhares de anos de organização social e poder, conseguimos radicalmente dividir nosso mundo em dois.

Caminhamos sempre, com uma espada nas costas, impelidos a decidir e tomar partido entre pretos e brancos, entre certo ou errado, o mal e o bem, anjos e demônios, esquerda e direita, muçulmanos e cristãos, enfim nos colocam sistematicamente na encruzilhada acalentadora da ignorância.

Opostos, antagônicos, somos nós e os outros. E é claro, os outros sempre representam o mal a ser combatidos. Dividir para conquistar. Esta é a base da nossa história de sangue.

Uma história que de forma maniqueísta massageiam o ego do nosso preconceito cegando qualquer espécie de visão do outro, dos nossos iguais.

Quando nos agarramos a um extremo perdemos a história do percurso, perdemos nossa compreensão, perdemos o que temos de melhor em nossa humanidade, perdemos Michelangelo. A intolerância e o preconceito, filhos do orgulho, estão na raíz do nosso descaminho humano.