A arte e a luz

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Colagens de Alex Sernambi

Um amigo me pede para avaliar seus trabalhos. Quer uma opinião sincera, que poderá, inclusive ser extremamente dura, conforme suas palavras . Deseja minha abordagem, absolutamente verdadeira, para ajudá-lo na decisão sobre seu caminho relacionado aos trabalhos gráficos que já realiza. Perguntas que todos nós que trabalhamos com arte, independentemente da linguagem ou do tempo, já nos fizemos algum dia: Vale a pena seguir fazendo o que faço? Qual o valor daquilo que faço em um mundo que produz tanto? O que faço é importante para alguém, além de mim mesmo?

O caminho da arte, do ponto de vista destas angústias pessoais e silenciosas, talvez seja o mais árduo. Por que digo isso? Porque a arte não tem, como tantos outros ofícios, uma função objetiva, não produzimos pão, não salvamos vidas, não construimos casas. Nosso ofício tampouco deve ter compromisso com a linearidade ou mesmo com a coerência, como as têm a ciência, filosofia ou religião.

Geralmente são nas inflexões, nas mudanças bruscas de rumo, nos desvãos e contradições, que encontramos as verdadeiras fontes do nosso trabalho. É aí onde revelamos as melhores imagens, a melhor luz, cores, ou sons. Somos movidos por uma angústia psíquica permanente, a inquietude da mente ou da mão em sua busca constante por novas relações, novos sentidos, observando através de frestas que nos permitam ver além da matéria mais imediata.

Mas, antes mesmo de escrever sobre o trabalho de Alex – é como chama-se meu amigo, estudamos juntos na Escola Nacional de Bela Arte no Rio de Janeiro nos anos 80 – gostaria de afirmar que as pessoas, em seus mundos, em qualquer situação que se encontrem, estão necessitando de mais arte. Toda forma de arte é essencial à respiração do indivíduo, como também do coletivo. Em um mundo subjugado pela produção em série a serviço do consumo, a poesia da forma, da palavra e dos sons, me parece ser o único alimento descontaminado, que mantém nossa inquietação ativa. As escolas e tendências da arte se foram, os estilos fragmentaram-se em uma multiplicidade inacreditável, na medida em que as amarras teóricas dos grandes “ismos” romperam-se definitivamente. Dia após dia ganham força e importância as histórias pessoais, as marcas sobre a pele de pessoas que as expressam no plano da sua arte.

Portanto Alex tem muito a nos dizer ,seu trabalho é sólido e tem maturidade, e basta um olhar rápido sobre seus trabalhos para perceber esse volume acumulado em sua retina que lentamente é aplicado em um plano bidimensional com o cuidado de quem define uma cena tensa é rigorosa.

Mas agora vamos entrar nas especificidades. Cada artista tem suas singularidades, sua construção, suas ferramentas materiais e espirituais. Alex sempre me impressionou por duas características fortes: sua ironia refinada – dona de uma risada nervosa e contagiante – e simultaneamente uma carga depressiva – que arrasta sua visão aos nossos porões e subsolos com muita facilidade.

Encontro estas duas referências, bem estruturadas, em seus trabalhos gráficos. São duas linhas marcadas em sua produção. Mas não gostaria de limitar meu raciocínio neste círculo psicológico, porque acho mesmo que o processo criativo vai muito além da própria carga pessoal do autor. Alex tem utilizado a colagem como meio expressivo há muitos anos. Me lembro de trabalhos iniciais onde a aparente facilidade técnica da colagem resultava em um trabalho excessivamente carregado, com toda a carga irônica de uma realidade nonsense. São bons trabalhos que nos atingem através da força da construção barroca, onde a ilusão do detalhe se funde em uma grande imagem que nos impacta mais ou menos conforme o apelo da unidade resultante.

Mas, as colagens de Alex, rapidamente o arrastam para um campo que ele conhece bem, a luz. Quando os seus trabalhos iniciais – que eu descrevi acima – recebem um tratamento especial da luz, ganham mais um novo elemento, um valor de transcendência, naquilo que suas imagens já haviam conquistado. Os trabalhos de Alex, em primeiro lugar ganham com a diminuição de elementos e ampliação da atmosfera. Suas imagens tornam-se dramáticas, sem perder o potencial irônico. Suas obras nos retiram do mundo aparente e nos direcionam para os subterrâneos, para os nossos porões. E é aí que sua arte ganha força. Este, para mim é o caminho amplo e fecundo que se abre para o aprofundamento da obra de Alex.

Se você quer conhecer mais do trabalho de Alex clique aqui.

 

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