A vida tem mesmo valor?

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Muito se fala em mal do século. E muitos males são definidos como sendo o “principal mal do século”. Alguns são doenças, algumas físicas, outras psicológicas, outros males ainda estão no campo subjetivo da ética como: preconceito, violência, subjugação, etc. Temos ainda os grandes males objetivos como: a guerra, o dinheiro, as drogas, e tantos males se empilham que provavelmente teríamos uma nova torre de babel se elevando em direção aos céus.

Eu gostaria de chamar a atenção para uma palavra e ao mesmo tempo atitude que, para mim, está na base, na formação de muitos dos nossos males contemporâneos.

Eu estou falando da “hipocrisia”.

A hipocrisia por definição é o ato de fingir que se tenha qualidades, idéias ou sentimentos que na realidade não se possui. Provem do Latin hyposrisis e Grego hypokrisis que significam ação de desempenhar um papel.

Alguns pensadores modernos afirmam que a hipocrisia é o único cimento que permite a convivência tão próxima entre as crenças do espírito religioso e o capitalismo como o conhecemos. Portanto a hipocrisia permeia todas as nossas grandes ambiguidades, os paradoxos atuais, as contradições humanas.

François Duque de Rochefoucauld define de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

Já para o linguista Noam Chomsky, a hipocrisia, é definida como:  a recusa de “… aplicar a nós mesmos os mesmos valores que se aplicam a outros”.

Nós, no Brasil dos superlativos, vivemos hoje uma das maiores crises de hipocrisia cristalizada em uma sociedade em todos os tempos. Exigimos dos outros, de forma radical, aquilo que nós mesmos não fazemos.

Mas, muito além das fronteiras brasileiras, encontrei outra pérola da hipocrisia humana. Semanas atrás foi noticiada na imprensa internacional ocidental, com um certo orgulho, a quebra do recorde de tiros a distância. O problema desta nota é que seria prosaica caso o alvo não fosse uma pessoa.

A matéria foi tratada de forma técnica, fria, cirúrgica explicando a distância de 3.5 km, a curvatura da terra que foi levada em consideração, os 10 segundos que a bala levou para cobrir o trajeto, enfim uma ode ao tecnicismo, além da apologia à qualificação da arma canadense e do conhecimento dos nossos “snipers”. Todas as matérias que li tinham a mesma abordagem árida, como se a bala fosse em direção à uma lata velha.

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matéria G1

Simultaneamente, nossa sociedade através da educação que nos proporciona, dos padrões religiosos que prega, das bandeiras de solidariedade que empunha, defende com unhas e dentes os valores da vida, da sua manutenção.

Somos críticos mordazes dos nossos próprios antepassados, que por qualquer motivo, retiravam a vida do mais fraco, críticos das instituições como a inquisição que matavas sem pestanejar, da força, da guilhotina, da idade média e seu obscurantismo e incivilidade que retiraram tantas vidas inocentes. Épocas onde, dizemos hoje, a vida não tinha qualquer valor.

Somos realmente quem dizemos que somos? Somos defensores da vida em sua totalidade? Ou nos interessa apenas uma parte da vida, uma parte dos vivos?

Ainda estamos escondidos sob a mascará da hipocrisia, chorando apenas os nossos cadáveres (ainda assim nem todos), sofrendo apenas com os nossos males.

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