Giacometti em Londres

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Giacometti e Genet

A Tate Modern mostra até 10 de setembro deste ano uma das maiores exposições sobre Alberto Giacometti (1901/1966) realizadas na Inglaterra. Escultor, pintor e desenhista Giacometti possui uma das obras mais sólidas do chamado modernismo no último século.

Da mesma forma que a de Van Gogh, a obra de Giacometti é moída, remoída, pisada e repisada todos os dias em um processo lento, obsessivo, permanente, que atua sobre si mesmo. É como se o artista desejasse filtrar suas linhas, formas e cores, depurando constantemente seu próprio elemento.

Um processo que se assemelha à pintura oriental, onde pintores copiam aos seus mestres constantemente, em uma espiral que se repete, sem jamais ser a mesma.

A desfragmentação da imagem em Giacometti se sobrepõe, trabalho após trabalho, em um palimpsesto onde o caos está aprisionado em limites rigorosos, construídos por linhas perpendiculares, longitudinais, transversais. Giacometti se copia constantemente sem jamais se repetir.

Considero ainda que a força descomunal de sua obra está no fato de que Giacometti é único, seja na pintura, desenho ou escultura, ele é monolítico, não existe no conjunto de seus trabalhos um só espaço vazio ou mesmo qualquer área vacilante. Suas imagens são rigorosas e irrespiráveis.

Estar na frente de um Giacometti é um desafio, uma experiência que nos transporta a outro lugar sem que nenhum músculo do nosso corpo se movimente.

Jean Genet 1954 or 1955 by Alberto Giacometti 1901-1966

Retrato de Jean Genet por Giacometti

Para conhecer um pouco mais desta obra singular devemos ler um dos seus retratados ilustre e maldito: Jean Genet em O Ateliê de Giacometti. Vale conferir.

Sons de John Cage

A música de John Cage não permite que os ouvidos a percebam como música, – aquela doce e melodiosa que conhecíamos até aqui – mas como apenas como sons. Incluindo aí, com importância essencial, o silêncio, tão revelado pelo autor, valorizando assim o sons que vem do outro (daquele que ouve e respira).

A música melódica, tonal, que conhecemos e aprendemos a reconhecer ou ler, desde suas origens, passa pelo classismo, barroco e romantismo se diluindo até o inicio do século XX. Sons encadeados perfeitamente para nossos cinco sentidos. Sobretudo aquilo que é tátil, no sistema auditivo e a pele que absorve o ritmo em camadas de vibração celular. Esta música, como a conhecíamos há alguns anos, tem relação direta com as medidas do nosso corpo, com o alcance da visão, com os aromas da memória. Trata-se de música definida nas escalas do vento que percebemos em nossa pele, nas linhas das montanhas visíveis, no balanço do mar que se extingue em um arco como horizonte. A música tonal é encadeada como são as ligações naturais, como o balanço das árvores, o movimento dos animais. Esta música é músculo em contração, é respiração contínua, fazíamos música como olhávamos para o mundo, um olhar rápido e desinteressado, ou rápido e profundo, um olhar obcecado e permanente, triste ou melancólico. Uma música encadeada, setenária, contínua sem rupturas, sem vazios, sem desafios, aconchegante, maternal. A música que nos trouxe até aqui projeta linhas que se movimentam e giram ao nosso redor criando um vórtice que nos envolve e protege. Ela é antropométrica em nossa relação com o meio.

Nos anos 40 John Cage entra em contato com uma câmara anecóica (Anechoic chamber), um ambiente criado pela engenharia, com seis paredes feitas com material especial para não reverberar nenhum eco. Um lugar que proporcionaria um silêncio quase total. E é aí neste local que Cage descobre que não existe silêncio, os sons internos, do seu próprio corpo ocupam seus sentidos e abrem perspectivas infinitas para sua música. Esta experiência inaugura um espaço para sons difíceis, duros, aleatórios, distantes das medidas do nosso corpo mais superficial ou mesmo da natureza visível que nos cerca.

Ao mesmo tempo em que desenha caminhos para Cage valorizar todos os sons que nos circundam, confira nas palavras do músico em outro post, independente da “genialidade” do artista, o que vale para Cage é a multiplicidade estabelecida entre artista, obra e ouvinte. Aqui encontramos uma similaridade com a obra de Duchamp que nos recoloca frente a frente com os objetos prosaicos disponíveis a nossa volta em seus ready mades, da mesma forma que Cage nos coloca diante dos sons que nos cercam em todos os segundos da nossa vida.

Mas independentemente das inferências filosóficas retiradas da obra de John Cage, ao revelar os sons singulares do microcosmo, sua música igualmente nos eleva aos sons do macrocosmo, das estrelas. Um eco e um oco sonoro de raios cósmicos, um som de partículas em deslocamento, fluxo elementar passando por nossos ouvido e pele. Sua música revela a permeabilidade celular  e orgânica dos líquidos, os impulsos elétricos do córtex animal, mas simultaneamente o pulso das estrelas, a viagem da luz no vácuo, entre milhões de partículas gravitando de forma intempestiva.

Sua música está “em lugar algum” do nosso espaço circundante. E ao mesmo tempo, infinitamente próxima, íntima, dissolvida no “eu”. É a música de um momento presente – um átimo entre dois movimentos -, pontual, único, porém de um ser singular mas completamente permeável ao outro.

Enquanto a melodia afaga e agasalha nossas emoções, os sons de Cage sacode nosso espírito.

O Panóptico chamado Brasil

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O Brasil torna-se lentamente um estado policialesco, onde justiça, ministério público, e os diversos tipos de polícia que temos por aqui: Federal, Civil, Militar, Municipais, etc. tornaram-se protagonistas e verdadeiras locomotivas na mídia brasileira. Inclusive com personagens que estão quase na condição de celebridades ou personagens.

Por tudo aquilo que temos visto ser desenterrado nos porões do poder em Brasília, além de vários outros estados brasileiros, não há dúvida que, nos últimos anos, os volumes financeiros desviados rapidamente estariam expostos, se transformando em caso de polícia. O criminoso sempre peca pelo excesso. Mas também é verdade que quando a força de coerção passa de sua medida legal, chegamos a algo muito parecido com o fascismo, ditadura ou coronelismo, mais ao nosso gosto colonial. Um estado de exceção. Onde câmeras, grampos telefônicos, gravadores de bolso, disfarçados, dissimulados, delatores do inconfessável, são as ferramentas mais eficientes para nos aproximarmos da verdade, ou para utilizar um termo mais atual: transparência.

Como já disse aqui neste blog em um texto chamado “Pacotes, operações e o futuro”, desde 2003 foram feitas, apenas pela Polícia Federal, mais de 3 mil operações de grande porte, envolvendo setores públicos e empresas privadas, além de organizações não governamentais.

Me parece que se as operações estão aí é porque criminosos e crimes existem. A pergunta que faço é: quais os resultados destas operações, o que elas resgataram aos cofres públicos do que foi retirado deles? Quantos foram punidos nestas mais de 3 mil operações? Como elas podem evitar que novos crimes sejam cometidos? Se estas perguntas não forem respondidas consistentemente, para mim, de nada valeram as operações, também feitas com dinheiro público.

Em outros países com discursos também embasados no caráter de urgência, de emergência, ou mesmo de segurança nacional lançou-se mão da força “policial”, para combater o “inimigo”.

Cito aqui o exemplo do Macarthismo nos EUA, que “visando o bem” da sociedade americana e a preservação da sua democracia, por força policial matou milhares, além de expulsar muitos outros do país, em nome do combate ao comunismo. O governo francês também decretou estado de urgência no outono francês de 2005 e inverno de 2006, para controlar as chamadas Zonas Urbanas Sensíveis – a periferia de Paris e outras regiões onde vivem 5 milhões de franceses, na sua maioria descendentes de árabes e de africanos, em função de manifestações sociais. Outro exemplo clássico e atual é o National Defense Authorization Act (NDAA), de 2012 justificado pelos atentados do 11 de setembro de 2001, prevê, entre outras agressões civis, que cidadãos americanos possam ser mantidos presos sem acusação formal e sem julgamento por tempo indeterminado, em nome do “combate ao terrorismo”.

Me parece que o Brasil e sua população não escolheu o caminho da ditadura, mas não deseja também a corrupção instalada junto aos poderes. Esperamos que as forças policiais apenas combatam o crime em todos os seus âmbitos.

Estou certo que corrupção não se combate com força policial. Se combate com força cultural, educacional, com a força do exemplo individual. Polícia serve apenas para punir o crime já comprovado. Polícia nunca foi e não será agente transformador, apenas uma força repressora e mais ou menos necessária conforme a organização social.

Lembro de Michel Foucault e seu estudo sobre sociedade e poder, que resgata a ideia de Jeremy Bentham do Panóptico, um dispositivos de vigilância do início do século, onde a vigilância policial domina a distribuição de corpos em diversificadas superfícies (prisões, manicómios, escolas, fábricas). Neste livro, “Vigiar e Punir”, Foucault altera o modo de pensar e fazer política social no mundo ocidental.

Precisamos estar atentos ao frágil Brasil. Não precisamos de heróis, de justiceiros, não precisamos de mais força de repressão. Precisamos combater o crime. Mas com a certeza que corrupção e crimes se combatem com inteligência, com cultura, com educação, com igualdade de oportunidades, e principalmente valorizando as atitudes individuais de respeito ao outro em nosso dia a dia.

A verdade em mutação

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Foto James Belog

Os dogmas sempre me incomodaram. A vida plena, me parece, não deve abrir mão de alguns pressupostos e um deles nos indica o caminho: sem esperança nem medo. Nec spe, nec metu. Os ambientalistas erraram ao trabalhar com as mesmas armas dos desenvolvimentistas e capitalistas radicais. Abuso científico e a imposição do medo como estratégia de convencimento. Todo o trabalho feito na direção da conscientização, principalmente, das gerações mais novas, deu frutos positivos. Todo o trabalho visando refrear o desenvolvimento de forma radical e com previsões radicais, terá de ser reescrita e só trouxe descrédito.

http://midiasemmascara.org/artigos/ambientalismo/aquecimento-global-pai-da-hipotese-gaia-se-arrepende-do-seu-alarmismo/

Intolerância e estagnação

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Imagem retirada do site bulevoador.com.br

Ainda não superamos a eleição de 2014. O Brasil dividido, o Brasil radicalizado, o Brasil intolerante, esse Brasil resiste e permanece crescendo com o fermento da ignorância e do ódio.

Não tenho dúvidas sobre a origem deste vulcão que vem ensaiando uma grande explosão já há alguns anos. Não tenho dúvidas também sobre a manipulação que muitos e poderosos atores, neste grande cenário, exercem sobre inocentes úteis tratados como manada. Mas na origem deste vulcão estão os séculos de abismo social mantidos no Brasil, como país periférico que é, sempre a serviço dos poderes maiores, externos e internos. Abismo este que alimentou silenciosamente, nas sombras, muito ódio, muita frustração, muita revolta.

As pessoas estão todos os dias, seja em família, no trabalho, nas ruas, ou mesmo nos telefones celulares, se manifestando sobre todos estes assuntos como: As reformas de maneira geral, seja da previdência, seja trabalhista, seja política; discutem a importância dos sindicatos; discutem lei anticorrupção, lei contra o abuso de poder; o país nunca discutiu tanto.

Discutiu e segue discutindo de fato?

Temos discutido ou já temos posição determinada e preconcebida em função de nosso cargo, segmento, posição social, política ou mesmo religiosa?

Me parece, por tudo que tenho lido, que os brasileiros têm hoje duas placas, uma em cada mão. Em uma mão temos uma placa escrito contra e na outra um placa escrito a favor. Estão tentando nos transformar em pessoas com apenas dois neurônios. Um para dizer sim e o outro não.

Nenhum dos assuntos, todos muito importantes, tem sido discutidos com a profundidade que merecem. Todas as manifestações tem-se dado na base do: isso me interessa (é sim), isso não me interessa (é não).

O Brasil esta tendo uma oportunidade gigantesca de se passar a limpo, de implementar importantes mudanças em nossa base produtiva, política, e cultura. Mas certamente não é apenas com intolerância e ódio que se avança. Não iremos a lugar algum apenas com o discurso de vingança. Precisamos discutir e decidir as coisas não apenas a partir da nossa ótica individual e limitada.

Cito um exemplo recente daquilo que temos de pior em nossa humanidade, e que vem ocorrendo no Brasil atual. Exemplo onde a intolerância extrapola a inteligência e o respeito pelo outro e suas ideias e atitudes. Você acompanhou o que aconteceu com Leandro Karnal em Curitiba? Não? Então leia está matéria.

Velázquez e suas meninas

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Um Diego Velázquez é vendido por oito milhões de euros. A pintura de uma niña com seu olhar distante, mas também interrogador. Ela não nos olha diretamente nos olhos, observa algo em nosso entorno e suas mãos puras pedem por algo que inquieta.

Cada retrato de Velázquez expressa vigorosamente aquilo que o pintor se propõe a estabelecer entre o retratado que olha ao observador ou mesmo o que nós observadores podemos buscar na imagem que é vista.

Diego Velázquez já foi considerado por muitos o “pintor dos pintores”, frase cunhada por Édouard Manet, além de ser considerado o maior retratista entre todos os pintores.

Não viveu uma vida conturbada, como grande parte dos grandes artistas, tampouco nasceu ou morreu pobre. Nasceu em meio a nobreza, foi sempre o pintor da corte, e por duas oportunidades viajou a Itália para conhecer os antigos mestres e respirar o berço do renascimento. Conheceu o mestre o barroco Peter Paul Rubens, além de estudar as obras de Ticiano, Tintoretto e Veronese, conhecendo todas as cores da escola veneziana. El Greco era sua obsessão.  Picasso, Dali, entre outros utilizaram suas obras como referencias para suas pinturas. Francis Bacon realizou uma série de trabalhos tendo como ponto de partida obras de Velázquez.

Seguramente a tranquilidade financeira do pintor deu a ele o tempo e a paz necessária para desenvolver sua técnica que está entre as mais requintadas da história da pintura.

Velázquez bebeu na fonte de Caravaggio e EL Greco, e serviu como caminho pictórico e expressivo para um número gigantesco de grandes artistas posteriores. Sua “Las meninas” assombra muitos artistas até nossos dias, uma pintura que reflete infinitos espelhos, perspectivas, planos e contraplanos traçados por olhares incomuns. Uma pintura que todo artista gostaria de ter executado. Uma obra onde a imagem vai muito além do que mostra, um espaço que estabelece relações transcendentes, contudo trabalha com as forças mais sólidas da imanência.

O último trabalho do artista espanhol, e que praticamente o leva a morte, simultaneamente imortaliza a “infanta Margarida da Áustria”.

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Kazimir Malévich – Cruz Branca e Cruz Negra

É indiscutível que nossas construções ancestrais: genética, imagética, sensível e finalmente o que podemos considerar como sua resultante, a ética, são estruturadas e definidas por eixos rígidos, resistentes, milenares. Esta arquitetura dos eixos originais fortalece sempre sua resultante, uma consequente polarização, seu balanço ou equilíbrio. Afinal nossa formação é de origem dupla.

É assim, inevitavelmente, que percebemos a relação de um eixo com seu espaço circundante. Todo eixo possui seus dois extremos ligados por uma força comum que une ambos, de forma equilibrada ou mesmo desequilibrada.

Nosso mundo interno e externo desde sempre foi lido a partir de uma linha de horizonte, já nascemos diante do horizonte, nossos olhos definem imediatamente o que está acima e o que está abaixo. Isso fisicamente nos coloca, eretos, entre a terra e o céu. Animais e vegetais ligam a terra, através de nossos pés/raízes, ao céu, por meio de respirações/fotossínteses.

Não podemos desconsiderar a lição simples de Novalis quando nos diz: “Toda linha é o eixo de um universo”.

Todo eixo tem seus dois extremos, mas há inelutavelmente uma ligação – perceptível ou não, visível ou não, material ou não – entre eles. Uma escala complexa se impõe entre fracos e fortes, entre pretos e brancos, entre femininos e masculinos, entre objetivos e subjetivos, entre opacos e transparentes, um “indescritível tecido de filigranas” transformando sutilmente a matéria mais pesada nas formas mais expressivas da leveza.

Ou não é assim que um enorme e pesado bloco de mármore se transformou na imagem de Davi? E o que é esse “indiscritível tecido de filigranas”, que separa a rocha bruta da escultura perfeita, a não ser a vida mesma de Michelangelo, com todas as suas contradições? Portanto entre a pedra e a imagem já havia, mesmo antes de Michelangelo, um pulso, uma carga de probabilidade, um desejo latente, nos dois extremos deste eixo. No seio da pedra bruta e na imagem projetada de Davi, estes dois extremos aguardavam por uma mão que os desvelassem em sua unidade. No meio do percurso havia um Davi em pedra.

Mas deveríamos ter desde cedo aprendido algo fundamental: estes extremos fazem parte da mesma história, tem a mesma origem, são sempre faces da mesma lâmina, trama e urdidura do mesmo tecido, pó da mesma terra, partículas do mesmo ar, imagens do mesmo corpo, ideias das mesmas mentes.

Em milhares de anos de organização social e poder, conseguimos radicalmente dividir nosso mundo em dois.

Caminhamos sempre, com uma espada nas costas, impelidos a decidir e tomar partido entre pretos e brancos, entre certo ou errado, o mal e o bem, anjos e demônios, esquerda e direita, muçulmanos e cristãos, enfim nos colocam sistematicamente na encruzilhada acalentadora da ignorância.

Opostos, antagônicos, somos nós e os outros. E é claro, os outros sempre representam o mal a ser combatidos. Dividir para conquistar. Esta é a base da nossa história de sangue.

Uma história que de forma maniqueísta massageiam o ego do nosso preconceito cegando qualquer espécie de visão do outro, dos nossos iguais.

Quando nos agarramos a um extremo perdemos a história do percurso, perdemos nossa compreensão, perdemos o que temos de melhor em nossa humanidade, perdemos Michelangelo. A intolerância e o preconceito, filhos do orgulho, estão na raíz do nosso descaminho humano.

Pacotes, operações e o futuro…

 

 

pacote e operaçãoChristo and Jeanne Claude: PS1 – Man Ray: O Enigma de Isidore Ducasse – Rembrandt: A Lição de Anatomia do Doutor Tulp e O Boi Descarnado.

 

Já fomos o país dos planos que no fundo eram pacotes econômicos. Isto para não ir muito mais longe no passado de um país que foi descoberto há 500 anos, porém tem bem menos tempo de história que valha a pena relatar. Voltando aos pacotes. Lembram? Plano/Pacote do Sarney ou Cruzado, do Funaro, Bresser, Plano Verão, Collor 1, Collor 2, Real. Naquele momento recente da história brasileira dizia-se que nossos problemas eram decorrentes da inflação. Problemas econômicos, brasileiros sem controle financeiro, sem experiência monetária/democrática, dizia-se que os brasileiros engatinhavam no grande salão do capitalismo moderno.

Passados 30 anos viramos o país das operações. Retiramos o país das páginas econômicas e o colocamos nas páginas policiais. Operação Zelotes, Vórtex, Dupla Face, Cosa Nostra, Lava Jato, apenas para ficar em algumas, até porque você não vai acreditar no número de operações desencadeadas no Brasil desde 2003…são mais de três mil operações apenas da Polícia Federal. Neste momento atual da história brasileira diz-se que nossos problemas são decorrentes da corrupção. Propina em todos os lugares, falta seriedade, falta comprometimento, diz-se que os brasileiros engatinham no grande salão da democracia moderna.

O país vive intoxicado com estes discursos hegemônicos, obtusos, e fáceis, que desejam o Brasil preservado como o “país do futuro”. Estes discursos buscam um inimigo, em alguns momentos a Inflação e a economia, em outros a corrupção e a política. Estamos há anos discutindo aquilo que não formará o país. Não temos uma agenda para o Brasil. Toda a nossa energia se concentra, deliberadamente, em um discurso autofágico e destruidor.

Não devemos discutir inflação e corrupção? Sim é claro. Mas estes não podem ser os principais focos de uma nação.

O que aconteceria se todas as televisões, rádios, jornais, redes sociais, blogs, etc. destinassem o mesmo tempo – que já dedicaram no passado à inflação e à economia, somado ao tempo que hoje dedicam à corrupção e à má política – dedicando-se por exemplo à educação financeira, ao empreendedorismo, à ética, a importância da política pública na vida das pessoas, o respeito ao outro que pode ser um familiar, amigo, cliente ou mesmo desconhecido.

Infelizmente o Brasil tem seguido o conselho de Giuseppe di Lampedusa: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Temos mudado apenas na forma. Nosso foco (ou inimigo comum) deixou de ser a inflação e passou a ser a corrupção. Mas o conteúdo permanece o mesmo: os brasileiros tem matado um aos outros na ordem de 150 homicídios diários. Brasileiros matando brasileiros em alguns casos por conta de um celular ou R$ 50,00.

Quando teremos um país onde aquilo que está escrito em uma embalagem, realmente esteja dentro da própria? Quando poderemos sair à noite de casa sem medo de não retornar? Quando abriremos um negócio que signifique realmente um futuro melhor e não mais um pesadelo todos os dias e noites?

Muito provavelmente, quando valorizarmos os “pacotes” de Christo, os embrulhos de Man Ray, ou mesmo aprendermos mais com as operações pictóricas de Rembrandt, investindo em uma cultura de construção, retirando as pessoas da miséria espiritual que as imobiliza, sairemos gradualmente do atoleiro em que nos encontramos. Assim demonstra a experiência em outros países.

 

O Brasil e suas carnes

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Trouxas ensanguentadas de Artur Barrios

Nas décadas de 60 e 70, no auge da repressão que aconteceu durante os governos dos presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, o Brasil já havia se encontrado com suas próprias carnes. O artista Artur Barrios espalhava “Trouxas ensanguentadas” pelas ruas e terrenos baldios indicando o caminho dos crimes e o cheiro do sangue da ditadura.

A obra de Barrios segue atualíssima. Nos dias de hoje qualquer artista, sem tanta originalidade é claro, que empacotasse ossos, carnes e vísceras, largando-os nas ruas de qualquer cidade brasileira estaria indicando ainda o caminho dos crimes praticados no Brasil, não mais através da repressão militar, mas sem dúvida, crimes praticados no grande esgoto a céu aberto em que se transformou nosso país.

Está estabelecida uma tamanha promiscuidade entre o público e o privado capaz de destruir completamente a linha que deveria resguardar as mais básicas regras de relação entre estes dois campos.

O que é de todos e deve ser respeitado e usufruído por todos (isso é público, escrevo porque entendo que ainda não temos isso bem claro), o que é apenas meu e serve tão somente ao meu uso (isso sim é privado) e posso fazer uso como desejar.

Embora, nos dias atuais, mesmo no campo da iniciativa privada o respeito às atitudes e ao outro (consumidor/cliente) deve vir antes de tudo. Por que as autoridades e empresas brasileiras não aprendem com experiências já vividas? O presidente mundial da Toyota veio a público pedir perdão por um grande recall necessário em seus veículos. Ele se comprometeu a corrigir e melhorar seus processos. Os exemplos são muitos. A Volkswagen pediu desculpas ao mundo por utilizar um software que driblava o sistema de controle de emissão de poluentes. O CEO do Uber pediu desculpas públicas, recentemente, por tratar mal um dos seus colaboradores em uma de suas viagem utilizando seu próprio serviço.

No Brasil não. Governo e empresários culpam a polícia (pasmem) por abusos na divulgação dos fatos. E mesmo no caso de haver abuso na forma, antes houve um crime e contra a saúde pública. Esse é o conteúdo significativo.

Por que não pedem desculpas por permitir (governo) uma falha na fiscalização, com provas de corrupção de funcionários públicos, além de prenderem (empresários) pessoas da iniciativa privada que ultrapassaram e muito a linha que divide o interesse público na proteção da saúde dos consumidores, dos interesses de ganho privado.

Infelizmente as atitudes tanto públicas quanto privadas me levam a crer que ainda teremos muita carne abandonada em “Trouxas ensanguentadas” aparecendo nas ruas do Brasil. Corrupção e crime não se combate jogando para baixo do tapete. Estes cadáveres acabam aparecendo em algum momento, trazidos a tona por algum Artur Barrios em atividade.

Os brasileiros cansados de tantas “Trouxas”, esperando que tenhamos chegado ao fundo do poço e que esta seja a última, talvez devam se conformar com a realidade de um poço mais fundo do que imaginamos.