Humano, demasiado humano

 

O título deste texto é um livro de Friedrich Nietzsche, onde o filósofo alemão destrói, de maneira consistente, as realidades eternas e as verdades absolutas, de sua época. Nietzsche nos apresenta o conceito de espírito livre e projeta o comportamento do homem do futuro.

Neste livro de aforismos faz um crítica pesada sobre a história da filosofia e da ciência, nos dando conta que elas não atingiram seu objetivo de ajudarem na construção de espíritos realmente livres: homens que não permanecem no conforto do trilho já aberto por seus antecessores, mas que desbrava seu próprio caminho.

Mas apenas cito Nietzsche, um iconoclasta absoluto, porque considero sua obra como o bisturi, mais afiado, sobre a carne macia dos homens entorpecidos pelo som hegemônico do poder.

O poder que sempre controlou através de sua mais conhecida ferramenta: o medo.

Assim, nos últimos 100 anos, a população mundial, entre capitalismo e socialismo, vagou perdida entre informações e desinformações. Uma divisão maniqueísta que servia aos dois senhores. Anjos e demônios. Uns exploravam os mais fracos para obtenção do lucro, os outros comiam criancinhas, além de serem ateus.

Dessa forma, de maneira segmentada, quem detém algum poder sempre utiliza o medo como seu aliado para a manutenção deste mesmo poder.

Alguns exemplos são fáceis de serem comprovados: A indústria farmacêutica e seus remédios salvadores, a indústria religiosa e suas doações salvadoras, a indústria da segurança e suas câmeras e alarmes protetores.

Quem conhece a obra de Thomas Malthus, cientista inglês, falecido no século XIX, sabe de sua projeção de fome, miséria e doenças, a partir de estudos sobre o crescimento aritmético da produção de alimentos contra o crescimento  geométrico da população mundial. Lançou o terror sobre as pessoas e depois vendeu sua tese de controle da natalidade, castidade, etc. Como bom religioso anglicano que era, depois de estruturar o problema da matéria, entrou no campo do espírito para concluir seu estudo de caráter moralizante.

Porém nenhuma destas estratégias e modus operandi me surpreende. Esta era a nossa história, uma história feita de muitos equívocos, sangue e lágrimas, onde caminhávamos quase tateando sobre a geografia escarpada e difícil do planeta, sem uma ampla visão do todo.

Mas chegamos aqui com um mundo “menor”, mais próximo onde nunca se falou tanto em tolerância, compreensão, diferenças, compartilhamento, etc. E o fruto desta inflexão, mudança de comportamento, que retirou os “humanos” da discussão focada no cadáver capitalismo/comunismo foi: o ambientalismo. Nossa última e mais recente utopia. Uma nova hóstia para ser ingerida.

Minha surpresa reside aí. O discurso estruturado dos ambientalistas, segue com a lógica velha, utilizando o medo como bengala. Aquecimento global, elevação do mar, degelo das calotas polares, camada de ozônio, etc…. Dados deturpados, enganosos para que a população mundial tenha aderência através do pavor, do medo da morte, da incerteza no futuro.

É realmente triste que uma discussão positiva e importante como esta seja tratada de forma tão venal. É fundamental abordarmos os recursos naturais, sua utilização pelo homem, a definição dos nossos limites, mas sem a posição hegemônica e monolítica, mais uma vez do poder econômico travestido de cordeiro.

Nietzsche ainda aguarda a nossa construção de espíritos livres. Mas sem o devido espaço para o contraditório, para pensamentos divergentes ou mesmo antagônicos, sem o respeito às diferenças (sistematicamente defendidas nas vanguardas), não avançaremos um milímetro. Espero que o Ambientalismo não se transforme em mais uma marca, como tantas outras, vendida em nossos shoppings…

 

 

A vida tem mesmo valor?

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Muito se fala em mal do século. E muitos males são definidos como sendo o “principal mal do século”. Alguns são doenças, algumas físicas, outras psicológicas, outros males ainda estão no campo subjetivo da ética como: preconceito, violência, subjugação, etc. Temos ainda os grandes males objetivos como: a guerra, o dinheiro, as drogas, e tantos males se empilham que provavelmente teríamos uma nova torre de babel se elevando em direção aos céus.

Eu gostaria de chamar a atenção para uma palavra e ao mesmo tempo atitude que, para mim, está na base, na formação de muitos dos nossos males contemporâneos.

Eu estou falando da “hipocrisia”.

A hipocrisia por definição é o ato de fingir que se tenha qualidades, idéias ou sentimentos que na realidade não se possui. Provem do Latin hyposrisis e Grego hypokrisis que significam ação de desempenhar um papel.

Alguns pensadores modernos afirmam que a hipocrisia é o único cimento que permite a convivência tão próxima entre as crenças do espírito religioso e o capitalismo como o conhecemos. Portanto a hipocrisia permeia todas as nossas grandes ambiguidades, os paradoxos atuais, as contradições humanas.

François Duque de Rochefoucauld define de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos.

Já para o linguista Noam Chomsky, a hipocrisia, é definida como:  a recusa de “… aplicar a nós mesmos os mesmos valores que se aplicam a outros”.

Nós, no Brasil dos superlativos, vivemos hoje uma das maiores crises de hipocrisia cristalizada em uma sociedade em todos os tempos. Exigimos dos outros, de forma radical, aquilo que nós mesmos não fazemos.

Mas, muito além das fronteiras brasileiras, encontrei outra pérola da hipocrisia humana. Semanas atrás foi noticiada na imprensa internacional ocidental, com um certo orgulho, a quebra do recorde de tiros a distância. O problema desta nota é que seria prosaica caso o alvo não fosse uma pessoa.

A matéria foi tratada de forma técnica, fria, cirúrgica explicando a distância de 3.5 km, a curvatura da terra que foi levada em consideração, os 10 segundos que a bala levou para cobrir o trajeto, enfim uma ode ao tecnicismo, além da apologia à qualificação da arma canadense e do conhecimento dos nossos “snipers”. Todas as matérias que li tinham a mesma abordagem árida, como se a bala fosse em direção à uma lata velha.

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Simultaneamente, nossa sociedade através da educação que nos proporciona, dos padrões religiosos que prega, das bandeiras de solidariedade que empunha, defende com unhas e dentes os valores da vida, da sua manutenção.

Somos críticos mordazes dos nossos próprios antepassados, que por qualquer motivo, retiravam a vida do mais fraco, críticos das instituições como a inquisição que matavas sem pestanejar, da força, da guilhotina, da idade média e seu obscurantismo e incivilidade que retiraram tantas vidas inocentes. Épocas onde, dizemos hoje, a vida não tinha qualquer valor.

Somos realmente quem dizemos que somos? Somos defensores da vida em sua totalidade? Ou nos interessa apenas uma parte da vida, uma parte dos vivos?

Ainda estamos escondidos sob a mascará da hipocrisia, chorando apenas os nossos cadáveres (ainda assim nem todos), sofrendo apenas com os nossos males.

O Panóptico chamado Brasil

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O Brasil torna-se lentamente um estado policialesco, onde justiça, ministério público, e os diversos tipos de polícia que temos por aqui: Federal, Civil, Militar, Municipais, etc. tornaram-se protagonistas e verdadeiras locomotivas na mídia brasileira. Inclusive com personagens que estão quase na condição de celebridades ou personagens.

Por tudo aquilo que temos visto ser desenterrado nos porões do poder em Brasília, além de vários outros estados brasileiros, não há dúvida que, nos últimos anos, os volumes financeiros desviados rapidamente estariam expostos, se transformando em caso de polícia. O criminoso sempre peca pelo excesso. Mas também é verdade que quando a força de coerção passa de sua medida legal, chegamos a algo muito parecido com o fascismo, ditadura ou coronelismo, mais ao nosso gosto colonial. Um estado de exceção. Onde câmeras, grampos telefônicos, gravadores de bolso, disfarçados, dissimulados, delatores do inconfessável, são as ferramentas mais eficientes para nos aproximarmos da verdade, ou para utilizar um termo mais atual: transparência.

Como já disse aqui neste blog em um texto chamado “Pacotes, operações e o futuro”, desde 2003 foram feitas, apenas pela Polícia Federal, mais de 3 mil operações de grande porte, envolvendo setores públicos e empresas privadas, além de organizações não governamentais.

Me parece que se as operações estão aí é porque criminosos e crimes existem. A pergunta que faço é: quais os resultados destas operações, o que elas resgataram aos cofres públicos do que foi retirado deles? Quantos foram punidos nestas mais de 3 mil operações? Como elas podem evitar que novos crimes sejam cometidos? Se estas perguntas não forem respondidas consistentemente, para mim, de nada valeram as operações, também feitas com dinheiro público.

Em outros países com discursos também embasados no caráter de urgência, de emergência, ou mesmo de segurança nacional lançou-se mão da força “policial”, para combater o “inimigo”.

Cito aqui o exemplo do Macarthismo nos EUA, que “visando o bem” da sociedade americana e a preservação da sua democracia, por força policial matou milhares, além de expulsar muitos outros do país, em nome do combate ao comunismo. O governo francês também decretou estado de urgência no outono francês de 2005 e inverno de 2006, para controlar as chamadas Zonas Urbanas Sensíveis – a periferia de Paris e outras regiões onde vivem 5 milhões de franceses, na sua maioria descendentes de árabes e de africanos, em função de manifestações sociais. Outro exemplo clássico e atual é o National Defense Authorization Act (NDAA), de 2012 justificado pelos atentados do 11 de setembro de 2001, prevê, entre outras agressões civis, que cidadãos americanos possam ser mantidos presos sem acusação formal e sem julgamento por tempo indeterminado, em nome do “combate ao terrorismo”.

Me parece que o Brasil e sua população não escolheu o caminho da ditadura, mas não deseja também a corrupção instalada junto aos poderes. Esperamos que as forças policiais apenas combatam o crime em todos os seus âmbitos.

Estou certo que corrupção não se combate com força policial. Se combate com força cultural, educacional, com a força do exemplo individual. Polícia serve apenas para punir o crime já comprovado. Polícia nunca foi e não será agente transformador, apenas uma força repressora e mais ou menos necessária conforme a organização social.

Lembro de Michel Foucault e seu estudo sobre sociedade e poder, que resgata a ideia de Jeremy Bentham do Panóptico, um dispositivos de vigilância do início do século, onde a vigilância policial domina a distribuição de corpos em diversificadas superfícies (prisões, manicómios, escolas, fábricas). Neste livro, “Vigiar e Punir”, Foucault altera o modo de pensar e fazer política social no mundo ocidental.

Precisamos estar atentos ao frágil Brasil. Não precisamos de heróis, de justiceiros, não precisamos de mais força de repressão. Precisamos combater o crime. Mas com a certeza que corrupção e crimes se combatem com inteligência, com cultura, com educação, com igualdade de oportunidades, e principalmente valorizando as atitudes individuais de respeito ao outro em nosso dia a dia.

Intolerância e estagnação

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Imagem retirada do site bulevoador.com.br

Ainda não superamos a eleição de 2014. O Brasil dividido, o Brasil radicalizado, o Brasil intolerante, esse Brasil resiste e permanece crescendo com o fermento da ignorância e do ódio.

Não tenho dúvidas sobre a origem deste vulcão que vem ensaiando uma grande explosão já há alguns anos. Não tenho dúvidas também sobre a manipulação que muitos e poderosos atores, neste grande cenário, exercem sobre inocentes úteis tratados como manada. Mas na origem deste vulcão estão os séculos de abismo social mantidos no Brasil, como país periférico que é, sempre a serviço dos poderes maiores, externos e internos. Abismo este que alimentou silenciosamente, nas sombras, muito ódio, muita frustração, muita revolta.

As pessoas estão todos os dias, seja em família, no trabalho, nas ruas, ou mesmo nos telefones celulares, se manifestando sobre todos estes assuntos como: As reformas de maneira geral, seja da previdência, seja trabalhista, seja política; discutem a importância dos sindicatos; discutem lei anticorrupção, lei contra o abuso de poder; o país nunca discutiu tanto.

Discutiu e segue discutindo de fato?

Temos discutido ou já temos posição determinada e preconcebida em função de nosso cargo, segmento, posição social, política ou mesmo religiosa?

Me parece, por tudo que tenho lido, que os brasileiros têm hoje duas placas, uma em cada mão. Em uma mão temos uma placa escrito contra e na outra um placa escrito a favor. Estão tentando nos transformar em pessoas com apenas dois neurônios. Um para dizer sim e o outro não.

Nenhum dos assuntos, todos muito importantes, tem sido discutidos com a profundidade que merecem. Todas as manifestações tem-se dado na base do: isso me interessa (é sim), isso não me interessa (é não).

O Brasil esta tendo uma oportunidade gigantesca de se passar a limpo, de implementar importantes mudanças em nossa base produtiva, política, e cultura. Mas certamente não é apenas com intolerância e ódio que se avança. Não iremos a lugar algum apenas com o discurso de vingança. Precisamos discutir e decidir as coisas não apenas a partir da nossa ótica individual e limitada.

Cito um exemplo recente daquilo que temos de pior em nossa humanidade, e que vem ocorrendo no Brasil atual. Exemplo onde a intolerância extrapola a inteligência e o respeito pelo outro e suas ideias e atitudes. Você acompanhou o que aconteceu com Leandro Karnal em Curitiba? Não? Então leia está matéria.

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Kazimir Malévich – Cruz Branca e Cruz Negra

É indiscutível que nossas construções ancestrais: genética, imagética, sensível e finalmente o que podemos considerar como sua resultante, a ética, são estruturadas e definidas por eixos rígidos, resistentes, milenares. Esta arquitetura dos eixos originais fortalece sempre sua resultante, uma consequente polarização, seu balanço ou equilíbrio. Afinal nossa formação é de origem dupla.

É assim, inevitavelmente, que percebemos a relação de um eixo com seu espaço circundante. Todo eixo possui seus dois extremos ligados por uma força comum que une ambos, de forma equilibrada ou mesmo desequilibrada.

Nosso mundo interno e externo desde sempre foi lido a partir de uma linha de horizonte, já nascemos diante do horizonte, nossos olhos definem imediatamente o que está acima e o que está abaixo. Isso fisicamente nos coloca, eretos, entre a terra e o céu. Animais e vegetais ligam a terra, através de nossos pés/raízes, ao céu, por meio de respirações/fotossínteses.

Não podemos desconsiderar a lição simples de Novalis quando nos diz: “Toda linha é o eixo de um universo”.

Todo eixo tem seus dois extremos, mas há inelutavelmente uma ligação – perceptível ou não, visível ou não, material ou não – entre eles. Uma escala complexa se impõe entre fracos e fortes, entre pretos e brancos, entre femininos e masculinos, entre objetivos e subjetivos, entre opacos e transparentes, um “indescritível tecido de filigranas” transformando sutilmente a matéria mais pesada nas formas mais expressivas da leveza.

Ou não é assim que um enorme e pesado bloco de mármore se transformou na imagem de Davi? E o que é esse “indiscritível tecido de filigranas”, que separa a rocha bruta da escultura perfeita, a não ser a vida mesma de Michelangelo, com todas as suas contradições? Portanto entre a pedra e a imagem já havia, mesmo antes de Michelangelo, um pulso, uma carga de probabilidade, um desejo latente, nos dois extremos deste eixo. No seio da pedra bruta e na imagem projetada de Davi, estes dois extremos aguardavam por uma mão que os desvelassem em sua unidade. No meio do percurso havia um Davi em pedra.

Mas deveríamos ter desde cedo aprendido algo fundamental: estes extremos fazem parte da mesma história, tem a mesma origem, são sempre faces da mesma lâmina, trama e urdidura do mesmo tecido, pó da mesma terra, partículas do mesmo ar, imagens do mesmo corpo, ideias das mesmas mentes.

Em milhares de anos de organização social e poder, conseguimos radicalmente dividir nosso mundo em dois.

Caminhamos sempre, com uma espada nas costas, impelidos a decidir e tomar partido entre pretos e brancos, entre certo ou errado, o mal e o bem, anjos e demônios, esquerda e direita, muçulmanos e cristãos, enfim nos colocam sistematicamente na encruzilhada acalentadora da ignorância.

Opostos, antagônicos, somos nós e os outros. E é claro, os outros sempre representam o mal a ser combatidos. Dividir para conquistar. Esta é a base da nossa história de sangue.

Uma história que de forma maniqueísta massageiam o ego do nosso preconceito cegando qualquer espécie de visão do outro, dos nossos iguais.

Quando nos agarramos a um extremo perdemos a história do percurso, perdemos nossa compreensão, perdemos o que temos de melhor em nossa humanidade, perdemos Michelangelo. A intolerância e o preconceito, filhos do orgulho, estão na raíz do nosso descaminho humano.

Pacotes, operações e o futuro…

 

 

pacote e operaçãoChristo and Jeanne Claude: PS1 – Man Ray: O Enigma de Isidore Ducasse – Rembrandt: A Lição de Anatomia do Doutor Tulp e O Boi Descarnado.

 

Já fomos o país dos planos que no fundo eram pacotes econômicos. Isto para não ir muito mais longe no passado de um país que foi descoberto há 500 anos, porém tem bem menos tempo de história que valha a pena relatar. Voltando aos pacotes. Lembram? Plano/Pacote do Sarney ou Cruzado, do Funaro, Bresser, Plano Verão, Collor 1, Collor 2, Real. Naquele momento recente da história brasileira dizia-se que nossos problemas eram decorrentes da inflação. Problemas econômicos, brasileiros sem controle financeiro, sem experiência monetária/democrática, dizia-se que os brasileiros engatinhavam no grande salão do capitalismo moderno.

Passados 30 anos viramos o país das operações. Retiramos o país das páginas econômicas e o colocamos nas páginas policiais. Operação Zelotes, Vórtex, Dupla Face, Cosa Nostra, Lava Jato, apenas para ficar em algumas, até porque você não vai acreditar no número de operações desencadeadas no Brasil desde 2003…são mais de três mil operações apenas da Polícia Federal. Neste momento atual da história brasileira diz-se que nossos problemas são decorrentes da corrupção. Propina em todos os lugares, falta seriedade, falta comprometimento, diz-se que os brasileiros engatinham no grande salão da democracia moderna.

O país vive intoxicado com estes discursos hegemônicos, obtusos, e fáceis, que desejam o Brasil preservado como o “país do futuro”. Estes discursos buscam um inimigo, em alguns momentos a Inflação e a economia, em outros a corrupção e a política. Estamos há anos discutindo aquilo que não formará o país. Não temos uma agenda para o Brasil. Toda a nossa energia se concentra, deliberadamente, em um discurso autofágico e destruidor.

Não devemos discutir inflação e corrupção? Sim é claro. Mas estes não podem ser os principais focos de uma nação.

O que aconteceria se todas as televisões, rádios, jornais, redes sociais, blogs, etc. destinassem o mesmo tempo – que já dedicaram no passado à inflação e à economia, somado ao tempo que hoje dedicam à corrupção e à má política – dedicando-se por exemplo à educação financeira, ao empreendedorismo, à ética, a importância da política pública na vida das pessoas, o respeito ao outro que pode ser um familiar, amigo, cliente ou mesmo desconhecido.

Infelizmente o Brasil tem seguido o conselho de Giuseppe di Lampedusa: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Temos mudado apenas na forma. Nosso foco (ou inimigo comum) deixou de ser a inflação e passou a ser a corrupção. Mas o conteúdo permanece o mesmo: os brasileiros tem matado um aos outros na ordem de 150 homicídios diários. Brasileiros matando brasileiros em alguns casos por conta de um celular ou R$ 50,00.

Quando teremos um país onde aquilo que está escrito em uma embalagem, realmente esteja dentro da própria? Quando poderemos sair à noite de casa sem medo de não retornar? Quando abriremos um negócio que signifique realmente um futuro melhor e não mais um pesadelo todos os dias e noites?

Muito provavelmente, quando valorizarmos os “pacotes” de Christo, os embrulhos de Man Ray, ou mesmo aprendermos mais com as operações pictóricas de Rembrandt, investindo em uma cultura de construção, retirando as pessoas da miséria espiritual que as imobiliza, sairemos gradualmente do atoleiro em que nos encontramos. Assim demonstra a experiência em outros países.

 

O Brasil e suas carnes

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Trouxas ensanguentadas de Artur Barrios

Nas décadas de 60 e 70, no auge da repressão que aconteceu durante os governos dos presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, o Brasil já havia se encontrado com suas próprias carnes. O artista Artur Barrios espalhava “Trouxas ensanguentadas” pelas ruas e terrenos baldios indicando o caminho dos crimes e o cheiro do sangue da ditadura.

A obra de Barrios segue atualíssima. Nos dias de hoje qualquer artista, sem tanta originalidade é claro, que empacotasse ossos, carnes e vísceras, largando-os nas ruas de qualquer cidade brasileira estaria indicando ainda o caminho dos crimes praticados no Brasil, não mais através da repressão militar, mas sem dúvida, crimes praticados no grande esgoto a céu aberto em que se transformou nosso país.

Está estabelecida uma tamanha promiscuidade entre o público e o privado capaz de destruir completamente a linha que deveria resguardar as mais básicas regras de relação entre estes dois campos.

O que é de todos e deve ser respeitado e usufruído por todos (isso é público, escrevo porque entendo que ainda não temos isso bem claro), o que é apenas meu e serve tão somente ao meu uso (isso sim é privado) e posso fazer uso como desejar.

Embora, nos dias atuais, mesmo no campo da iniciativa privada o respeito às atitudes e ao outro (consumidor/cliente) deve vir antes de tudo. Por que as autoridades e empresas brasileiras não aprendem com experiências já vividas? O presidente mundial da Toyota veio a público pedir perdão por um grande recall necessário em seus veículos. Ele se comprometeu a corrigir e melhorar seus processos. Os exemplos são muitos. A Volkswagen pediu desculpas ao mundo por utilizar um software que driblava o sistema de controle de emissão de poluentes. O CEO do Uber pediu desculpas públicas, recentemente, por tratar mal um dos seus colaboradores em uma de suas viagem utilizando seu próprio serviço.

No Brasil não. Governo e empresários culpam a polícia (pasmem) por abusos na divulgação dos fatos. E mesmo no caso de haver abuso na forma, antes houve um crime e contra a saúde pública. Esse é o conteúdo significativo.

Por que não pedem desculpas por permitir (governo) uma falha na fiscalização, com provas de corrupção de funcionários públicos, além de prenderem (empresários) pessoas da iniciativa privada que ultrapassaram e muito a linha que divide o interesse público na proteção da saúde dos consumidores, dos interesses de ganho privado.

Infelizmente as atitudes tanto públicas quanto privadas me levam a crer que ainda teremos muita carne abandonada em “Trouxas ensanguentadas” aparecendo nas ruas do Brasil. Corrupção e crime não se combate jogando para baixo do tapete. Estes cadáveres acabam aparecendo em algum momento, trazidos a tona por algum Artur Barrios em atividade.

Os brasileiros cansados de tantas “Trouxas”, esperando que tenhamos chegado ao fundo do poço e que esta seja a última, talvez devam se conformar com a realidade de um poço mais fundo do que imaginamos.

Max para ver

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Foto com intervenção de Max Moura

 

A paixão final de Max Moura pela fotografia talvez tenha dominado as fronteiras de seu território em função de um certo cansaço do fazer. O desenho, a pintura e a gravura são ofícios que exigem além do mental, também o físico, a fricção com a matéria resistente. Passar uma vida arrancando imagens de suportes brancos esgota nossos tendões e também as sinapses.

O enfrentamento angustiante com o branco do papel, da tela ou mesmo da pedra, metal e madeira se torna cada dia mais difícil, porque nosso grau de exigência cresce, ou pelo menos deveria. Buscamos aquilo que Paul Klee chamava: tornar visível.  Em algum momento de uma vida, como a de Max, totalmente voltada para a imagem, aqueles que trabalharam, como ele, dura e longamente revelando imagens a partir de toda a forma de matéria, se encontram diante de um simples prazer: ver. Isso porque aprenderam a olhar e ver.

A relação extrema e intensa com a imagem permite realizar aquilo que já sabemos: ver é imaginar.

Aqui lembro do cinema de Pier Paolo Pasolini em Decameron, quando na cena final o artista que pinta o retábulo, sonha com sua própria obra e ao acordar se pergunta: para que pintar, quando é tão melhor sonhar?

O que é sonhar senão ver com a alma, ainda que prescindindo de um corpo óptico, embora uma alma ainda manchada de carne e sangue?

Max viu suas imagens finais através de uma lente, enxergava seu mundo particular e o congelava, recortando, adicionando ou subtraindo os elementos de sua alma. Gravava sobre as imagens naturais outras imagens que apenas seus olhos captavam.

Quando ganhei esta foto lhe disse que escreveria sobre ela e cheguei a nomear os três personagens do primeiro plano: O perfumista, o letrado e o inquieto. Os três personagens desta foto que Max me deu durante sua exposição. Mas Max insistia comigo que não me fixasse apenas no primeiro plano mas principalmente ao fundo onde o seu desenho já era anunciador.

Não escrevi o texto após sua morte, talvez um dia o faça.

*O pintor, desenhista e gravador Max Moura nasceu e faleceu em Florianópolis em 1949/2009.

 

A ciência e a verdade

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O caráter científico  do mundo contemporâneo tem uma sólida base de apoio em René Descartes 1596/1650, filósofo, físico e matemático francês, que com seu nome grava a ferro e fogo o conceito popular “cartesiano” em toda a sua posteridade européia e com o passar dos anos na sociedade global.

O cartesianismo ocupou com naturalidade a mente do homem pós-renascentista que desejava explicações para sua existência, que fossem além do obscurantismo católico. Esta guinada brusca, da sociedade em 1500 anos de história ocidental, provoca um afastamento e enfraquecimento gradual da arte, da poesia e da espiritualidade do núcleo de nossa humanidade. Nosso devir passa a ser refém da ciência que arrasta um enorme e pesado lastro, necessário ao seu desenvolvimento, chamado consumo.

Subjugados por essa equação autofágica, hoje acreditamos apenas nos números frios, pesquisas, testes de laboratório, tratados científicos, especialistas, aquilo que podemos comprovar através da química, física e estatística.

Estamos distantes das nossas emoções e sentimentos, do respeito e da compreensão elevados pelo senso de alteridade, estamos distantes da poesia que diz, conforme Octavio Paz: “meu eu és tu”.

Praticamos uma ética obliqua e obtusa, que busca “compartilhar” – palavra do momento – majoritariamente o que temos de pior.

Portanto não entendo o espanto da sociedade quando um médico (com seu jaleco branco) “compartilha” o sigilo médico e o prontuário de seu paciente, em função de um ódio cego. Me escapa a lógica da indignação quando um advogado (em seu terno irretocável) leva para dentro de uma prisão armas ou drogas para seu cliente. Por que se irritar quando um policial (fardado) libera um marginal em flagrante em troca de parte do crime?

Estamos em uma encruzilhada. O que até pouco tempo parecia romanticamente vantagens competitivas ou estratégias em uma selva capitalista, hoje atinge a todos nós mortalmente à luz do dia, na contra mão, dentro de nossas casas, nos hospitais, nos tribunais, nas igrejas, nas escolas de nossos filhos.

Compreenderemos rapidamente que a ciência apenas já não nos basta para convivermos melhor com o mundo. Não serão suficientes as estatísticas que nos indicam o melhor caminho para termos mais saúde. Não importará sermos atendidos por profissionais dentro de seus uniformes assépticos, se não encontrarmos no seu interior mais civilidade.

A força gravitacional científica que nos atrai inelutavelmente neste momento específico da nossa história, deve perder sua centralidade absoluta a partir da tomada de consciência da nefasta hegemonia. Somos mais do que ciência. Somos aparência e essência, imanência e transcendência.

SCIENCE AND TRUTH

The scientific character of the contemporary world finds a solid base in René Descartes (1596- 1650). This French philosopher, physicist, and mathematician had his name fire engraved in the popular concept of “cartesian,” which went throughout the European posterity and further, in the global society.

Cartesianism has occupied with naturality the post-renaissance men’s mind, that wanted his existence explained beyond the Catholic obscurantism. This sudden turn of society, in 1500 years of Western history, provoked a gradual distancing and weakening in the arts, in poetry and in spirituality in our humanity’s core. Our future then became the hostage of a science that drags with it an enormous and heavy trail called “consumption,” which is necessary for its development.

Subjugated by this self-consuming equation, today we believe only in cold numbers, research, laboratory tests, scientific data, specialists, in things we can prove through chemistry, physics, statistics.

We are far from our feelings and emotions, far from respect and understanding raised by the sense of otherness. We are far from the poem that says, according to Octavio Paz, “you are my self.”

We practice an oblique and obtuse ethic that seeks to “share” — the word of the moment — mostly the worst in us.

Therefore I don’t understand society’s astonishment when a doctor (in his white coat) “shares” the medical confidentiality and his patient’s medical records because of a blind hatred. It escapes me the logic of indignation when a lawyer (in his impeccable suit) brings guns or drugs to his client in the prison. Why should we get angry when a police officer (wearing his uniform) releases a delinquent caught in flagrant in exchange for a part of the crime?

We are at a crossroads. What, not long ago, romantically seemed to be competitive advantages or strategies in a capitalist jungle, today strikes all of us dead in daylight, into oncoming traffic, inside our houses, in the hospitals, in the courts, in the churches, in our children’s schools.

We will quickly understand that science only is not enough anymore for us to live a better life with the world. The statistics that shows us the best way to get healthier won’t be enough. It won’t matter

if we are attended on by professionals in their aseptic uniforms if we can’t find civility in them anymore.

The gravitational force of science that inevitably attracts us in this specific moment in our history must lose its absolute centrality by the time we raise our consciousness about the harmful hegemony. We are more than science. We are appearance and essence, immanence and transcendence.