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Kazimir Malévich – Cruz Branca e Cruz Negra

É indiscutível que nossas construções ancestrais: genética, imagética, sensível e finalmente o que podemos considerar como sua resultante, a ética, são estruturadas e definidas por eixos rígidos, resistentes, milenares. Esta arquitetura dos eixos originais fortalece sempre sua resultante, uma consequente polarização, seu balanço ou equilíbrio. Afinal nossa formação é de origem dupla.

É assim, inevitavelmente, que percebemos a relação de um eixo com seu espaço circundante. Todo eixo possui seus dois extremos ligados por uma força comum que une ambos, de forma equilibrada ou mesmo desequilibrada.

Nosso mundo interno e externo desde sempre foi lido a partir de uma linha de horizonte, já nascemos diante do horizonte, nossos olhos definem imediatamente o que está acima e o que está abaixo. Isso fisicamente nos coloca, eretos, entre a terra e o céu. Animais e vegetais ligam a terra, através de nossos pés/raízes, ao céu, por meio de respirações/fotossínteses.

Não podemos desconsiderar a lição simples de Novalis quando nos diz: “Toda linha é o eixo de um universo”.

Todo eixo tem seus dois extremos, mas há inelutavelmente uma ligação – perceptível ou não, visível ou não, material ou não – entre eles. Uma escala complexa se impõe entre fracos e fortes, entre pretos e brancos, entre femininos e masculinos, entre objetivos e subjetivos, entre opacos e transparentes, um “indescritível tecido de filigranas” transformando sutilmente a matéria mais pesada nas formas mais expressivas da leveza.

Ou não é assim que um enorme e pesado bloco de mármore se transformou na imagem de Davi? E o que é esse “indiscritível tecido de filigranas”, que separa a rocha bruta da escultura perfeita, a não ser a vida mesma de Michelangelo, com todas as suas contradições? Portanto entre a pedra e a imagem já havia, mesmo antes de Michelangelo, um pulso, uma carga de probabilidade, um desejo latente, nos dois extremos deste eixo. No seio da pedra bruta e na imagem projetada de Davi, estes dois extremos aguardavam por uma mão que os desvelassem em sua unidade. No meio do percurso havia um Davi em pedra.

Mas deveríamos ter desde cedo aprendido algo fundamental: estes extremos fazem parte da mesma história, tem a mesma origem, são sempre faces da mesma lâmina, trama e urdidura do mesmo tecido, pó da mesma terra, partículas do mesmo ar, imagens do mesmo corpo, ideias das mesmas mentes.

Em milhares de anos de organização social e poder, conseguimos radicalmente dividir nosso mundo em dois.

Caminhamos sempre, com uma espada nas costas, impelidos a decidir e tomar partido entre pretos e brancos, entre certo ou errado, o mal e o bem, anjos e demônios, esquerda e direita, muçulmanos e cristãos, enfim nos colocam sistematicamente na encruzilhada acalentadora da ignorância.

Opostos, antagônicos, somos nós e os outros. E é claro, os outros sempre representam o mal a ser combatidos. Dividir para conquistar. Esta é a base da nossa história de sangue.

Uma história que de forma maniqueísta massageiam o ego do nosso preconceito cegando qualquer espécie de visão do outro, dos nossos iguais.

Quando nos agarramos a um extremo perdemos a história do percurso, perdemos nossa compreensão, perdemos o que temos de melhor em nossa humanidade, perdemos Michelangelo. A intolerância e o preconceito, filhos do orgulho, estão na raíz do nosso descaminho humano.

Pacotes, operações e o futuro…

 

 

pacote e operaçãoChristo and Jeanne Claude: PS1 – Man Ray: O Enigma de Isidore Ducasse – Rembrandt: A Lição de Anatomia do Doutor Tulp e O Boi Descarnado.

 

Já fomos o país dos planos que no fundo eram pacotes econômicos. Isto para não ir muito mais longe no passado de um país que foi descoberto há 500 anos, porém tem bem menos tempo de história que valha a pena relatar. Voltando aos pacotes. Lembram? Plano/Pacote do Sarney ou Cruzado, do Funaro, Bresser, Plano Verão, Collor 1, Collor 2, Real. Naquele momento recente da história brasileira dizia-se que nossos problemas eram decorrentes da inflação. Problemas econômicos, brasileiros sem controle financeiro, sem experiência monetária/democrática, dizia-se que os brasileiros engatinhavam no grande salão do capitalismo moderno.

Passados 30 anos viramos o país das operações. Retiramos o país das páginas econômicas e o colocamos nas páginas policiais. Operação Zelotes, Vórtex, Dupla Face, Cosa Nostra, Lava Jato, apenas para ficar em algumas, até porque você não vai acreditar no número de operações desencadeadas no Brasil desde 2003…são mais de três mil operações apenas da Polícia Federal. Neste momento atual da história brasileira diz-se que nossos problemas são decorrentes da corrupção. Propina em todos os lugares, falta seriedade, falta comprometimento, diz-se que os brasileiros engatinham no grande salão da democracia moderna.

O país vive intoxicado com estes discursos hegemônicos, obtusos, e fáceis, que desejam o Brasil preservado como o “país do futuro”. Estes discursos buscam um inimigo, em alguns momentos a Inflação e a economia, em outros a corrupção e a política. Estamos há anos discutindo aquilo que não formará o país. Não temos uma agenda para o Brasil. Toda a nossa energia se concentra, deliberadamente, em um discurso autofágico e destruidor.

Não devemos discutir inflação e corrupção? Sim é claro. Mas estes não podem ser os principais focos de uma nação.

O que aconteceria se todas as televisões, rádios, jornais, redes sociais, blogs, etc. destinassem o mesmo tempo – que já dedicaram no passado à inflação e à economia, somado ao tempo que hoje dedicam à corrupção e à má política – dedicando-se por exemplo à educação financeira, ao empreendedorismo, à ética, a importância da política pública na vida das pessoas, o respeito ao outro que pode ser um familiar, amigo, cliente ou mesmo desconhecido.

Infelizmente o Brasil tem seguido o conselho de Giuseppe di Lampedusa: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Temos mudado apenas na forma. Nosso foco (ou inimigo comum) deixou de ser a inflação e passou a ser a corrupção. Mas o conteúdo permanece o mesmo: os brasileiros tem matado um aos outros na ordem de 150 homicídios diários. Brasileiros matando brasileiros em alguns casos por conta de um celular ou R$ 50,00.

Quando teremos um país onde aquilo que está escrito em uma embalagem, realmente esteja dentro da própria? Quando poderemos sair à noite de casa sem medo de não retornar? Quando abriremos um negócio que signifique realmente um futuro melhor e não mais um pesadelo todos os dias e noites?

Muito provavelmente, quando valorizarmos os “pacotes” de Christo, os embrulhos de Man Ray, ou mesmo aprendermos mais com as operações pictóricas de Rembrandt, investindo em uma cultura de construção, retirando as pessoas da miséria espiritual que as imobiliza, sairemos gradualmente do atoleiro em que nos encontramos. Assim demonstra a experiência em outros países.

 

O Brasil e suas carnes

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Trouxas ensanguentadas de Artur Barrios

Nas décadas de 60 e 70, no auge da repressão que aconteceu durante os governos dos presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, o Brasil já havia se encontrado com suas próprias carnes. O artista Artur Barrios espalhava “Trouxas ensanguentadas” pelas ruas e terrenos baldios indicando o caminho dos crimes e o cheiro do sangue da ditadura.

A obra de Barrios segue atualíssima. Nos dias de hoje qualquer artista, sem tanta originalidade é claro, que empacotasse ossos, carnes e vísceras, largando-os nas ruas de qualquer cidade brasileira estaria indicando ainda o caminho dos crimes praticados no Brasil, não mais através da repressão militar, mas sem dúvida, crimes praticados no grande esgoto a céu aberto em que se transformou nosso país.

Está estabelecida uma tamanha promiscuidade entre o público e o privado capaz de destruir completamente a linha que deveria resguardar as mais básicas regras de relação entre estes dois campos.

O que é de todos e deve ser respeitado e usufruído por todos (isso é público, escrevo porque entendo que ainda não temos isso bem claro), o que é apenas meu e serve tão somente ao meu uso (isso sim é privado) e posso fazer uso como desejar.

Embora, nos dias atuais, mesmo no campo da iniciativa privada o respeito às atitudes e ao outro (consumidor/cliente) deve vir antes de tudo. Por que as autoridades e empresas brasileiras não aprendem com experiências já vividas? O presidente mundial da Toyota veio a público pedir perdão por um grande recall necessário em seus veículos. Ele se comprometeu a corrigir e melhorar seus processos. Os exemplos são muitos. A Volkswagen pediu desculpas ao mundo por utilizar um software que driblava o sistema de controle de emissão de poluentes. O CEO do Uber pediu desculpas públicas, recentemente, por tratar mal um dos seus colaboradores em uma de suas viagem utilizando seu próprio serviço.

No Brasil não. Governo e empresários culpam a polícia (pasmem) por abusos na divulgação dos fatos. E mesmo no caso de haver abuso na forma, antes houve um crime e contra a saúde pública. Esse é o conteúdo significativo.

Por que não pedem desculpas por permitir (governo) uma falha na fiscalização, com provas de corrupção de funcionários públicos, além de prenderem (empresários) pessoas da iniciativa privada que ultrapassaram e muito a linha que divide o interesse público na proteção da saúde dos consumidores, dos interesses de ganho privado.

Infelizmente as atitudes tanto públicas quanto privadas me levam a crer que ainda teremos muita carne abandonada em “Trouxas ensanguentadas” aparecendo nas ruas do Brasil. Corrupção e crime não se combate jogando para baixo do tapete. Estes cadáveres acabam aparecendo em algum momento, trazidos a tona por algum Artur Barrios em atividade.

Os brasileiros cansados de tantas “Trouxas”, esperando que tenhamos chegado ao fundo do poço e que esta seja a última, talvez devam se conformar com a realidade de um poço mais fundo do que imaginamos.

TVs espiãs vigiaram 11 milhões de famílias nos EUA

A tecnologia que nos serve como poderosa ferramenta, pode em muitos casos nos utilizar como inocentes úteis….sempre estaremos utilizando e sempre seremos utilizados….não há como escapar…a menos que você esteja desplugado….

Venceslau.com.br

Por Bruno Garattoni

Há vários anos, as televisões da marca Vizio são as mais vendidas nos Estados Unidos. E com razão: aliam excelente qualidade de imagem (vivem ganhando prêmios da imprensa especializada) com preços incrivelmente baixos: compra-se uma Vizio gigantesca, de 65 polegadas e com resolução 4K, por apenas US$ 850 – metade do que custam as outras marcas.

Mas havia um porém: secretamente, as Vizio monitoravam tudo o que as pessoas assistiam. A televisão usava uma técnica chamada automated content recognition (ACR) para identificar o que estava exibindo – ela comparava as sequências de pixels a uma base de dados mantida pelo fabricante. Dessa forma, conseguia saber não apenas qual canal ou programa de tv estava sendo visto, mas também rastreava outras fontes de conteúdo, como DVDs, Blu-ray e vídeos da internet.

Essas informações eram registradas num dossiê, que identificava detalhadamente os hábitos de cada família, e oferecidas a anunciantes…

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Max para ver

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Foto com intervenção de Max Moura

 

A paixão final de Max Moura pela fotografia talvez tenha dominado as fronteiras de seu território em função de um certo cansaço do fazer. O desenho, a pintura e a gravura são ofícios que exigem além do mental, também o físico, a fricção com a matéria resistente. Passar uma vida arrancando imagens de suportes brancos esgota nossos tendões e também as sinapses.

O enfrentamento angustiante com o branco do papel, da tela ou mesmo da pedra, metal e madeira se torna cada dia mais difícil, porque nosso grau de exigência cresce, ou pelo menos deveria. Buscamos aquilo que Paul Klee chamava: tornar visível.  Em algum momento de uma vida, como a de Max, totalmente voltada para a imagem, aqueles que trabalharam, como ele, dura e longamente revelando imagens a partir de toda a forma de matéria, se encontram diante de um simples prazer: ver. Isso porque aprenderam a olhar e ver.

A relação extrema e intensa com a imagem permite realizar aquilo que já sabemos: ver é imaginar.

Aqui lembro do cinema de Pier Paolo Pasolini em Decameron, quando na cena final o artista que pinta o retábulo, sonha com sua própria obra e ao acordar se pergunta: para que pintar, quando é tão melhor sonhar?

O que é sonhar senão ver com a alma, ainda que prescindindo de um corpo óptico, embora uma alma ainda manchada de carne e sangue?

Max viu suas imagens finais através de uma lente, enxergava seu mundo particular e o congelava, recortando, adicionando ou subtraindo os elementos de sua alma. Gravava sobre as imagens naturais outras imagens que apenas seus olhos captavam.

Quando ganhei esta foto lhe disse que escreveria sobre ela e cheguei a nomear os três personagens do primeiro plano: O perfumista, o letrado e o inquieto. Os três personagens desta foto que Max me deu durante sua exposição. Mas Max insistia comigo que não me fixasse apenas no primeiro plano mas principalmente ao fundo onde o seu desenho já era anunciador.

Não escrevi o texto após sua morte, talvez um dia o faça.

*O pintor, desenhista e gravador Max Moura nasceu e faleceu em Florianópolis em 1949/2009.

 

O tempo da arte

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Kazuo Ohno nasceu 27/10/1906 e morreu em 01/06/2010, dançarino e coreógrafo japonês é considerado mestre do teatro butô. Esteve no Brasil em 1986, 1992 e 1997. Sua arte sacudiu a dança contemporânea japonesa nos anos 60. Kazuo recebeu importante influência do dançarino expressionista alemão Harald Kreutzberg (1902-68). Outro fato significativo na vida de Kazuo Ohno foi sua paixão pela dançarina Antonia Mercé y Luque conhecida como La Argentina, que ele assistiu pela primeira vez no Teatro Imperial de Tóquio em 1929, e jamais a esqueceu.

“Durante os cinquenta anos que se passaram, essa visão muitas vezes me dominou. Mas pouco importa quantas vez me aconteceu de chamá-la ou de implorar; não se desvendou mais para mim, se bem que entranhada no mais profundo da minha alma.”

Portanto mais de cinquenta anos depois, o dançarino estava com 71 anos, durante uma exposição de um pintor japonês, diante de uma pintura geométrica, Kazuo Ohno começa a dar forma ao espetáculo “Admirando La Argentina” (fotos), um solo, que conquistou a Europa em 1980, no festival de Nancy, França.

A obra de Kazuo Ohno localiza-se naquele ponto único onde a arte parece negar-se a si própria. Um lugar onde poucos artistas se arriscam. Existe aí uma vontade de tocar o mistério, o obscuro, conhecer a morte em vida. O abismo precisa ser explorado até a sua desmedida. Sua dança não é dança. O que ele expressa é a própria vida/morte em movimento, em silêncio, em pausa, sem ar, sem olhar.

Neste lugar onde poucos habitam estão Jonh Cage e seu som do silêncio, que portanto não é música; Karlheinz Stockhausen com suas duas composições Licht e Klang, uma com vinte e nove horas de música e a outra com sons referentes aos sete dias da semana e da mesma forma não são música como a conhecemos. Igualmente neste campo da ausência está James Joyce e seu Finnegans Wake, ou mesmo Ulisses, textos que não são literatura. Não é diferente o desejo de Kazimir Malevich com sua obra Branco sobre Branco, uma pintura que não é pintura. Como também o Grande Vidro de Marcel Duchamp não é pintura, tampouco escultura.

Estas grandes obras filhas da ausência tentam fundir céu e inferno e encaram a vida e a morte como o mesmo elemento. É aqui que encontramos a performance de Kazuo Ohno buscando tocar a máxima escuridão com a mão direita enquanto retira o pé esquerdo da claridade absoluta.

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THE TIME OF ART

Kazuo Ohno was born on October 10, 1906, and died on July 01, 2010. The Japanese dancer and choreographer is considered a master of Butoh theater. He had been in Brazil in 1986, 1992 and 1997. His art shook the Japanese contemporary dance in the 1960’s. Kazuo received a great influence by the German expressionist dancer Harald Kreutzberg (1902-1968). Another relevant fact in Kazuo’s life is his passion for the dancer Antonia Mercé y Luque, also known as “La Argentina,” that he saw for the first time in the Imperial Theatre, in 1929 in Tokyo, and never forgot.

“During the fifty years that passed, this vision had dominated me a lot of times. But it doesn’t matter how many times I went calling on her or begging her; She didn’t reveal herself to me anymore, although [she was] engraved in the bottom of my soul.”

Then, when the dancer was 71 years old — therefore more than fifty years after seeing La Argentina’s performance —, in the face of a geometric paint in an exposition of a Japanese painter, Kazuo Ohno started to give form to the performance “Admiring La Argentina” (photos), a solo that has won over Europe in 1980, in the International Festival in Nancy, France.

Kazuo Ohno’s work is located at that point where art seems to deny itself. A particular place where few artists risk to go. There is a will to touch mystery and the obscure, and to know death in life. The abyss needs to be explored until its utmost. His dance is not dance. What he expresses is life/death itself in movement, in silence, in pause, breathless, sightless.

In this place where very few live, we find John Cage and his sound of silence that, therefore, is not

music; Karlheinz Stockhausen with his two compositions “Licht” and “Klang” — one lasting twenty-nine hours of music, and the other with sounds referring to the days of the week —, that, in the same sense, aren’t music as we know it. Also in this field of absence, we find James Joyce and his “Finnegans Wake,” or even “Ulysses,” books that are not literature. It’s not different the desire of Kazimir Malevich with his work “White On White,” a painting that is not a painting. As well as Duchamp’s “Great Glass,” that is not painting, nor it is sculpture.

These great works, spring of the absence, try to merge heaven and hell and look life and death as the same element. It is here where we find the performance of Kazuo Ohno, trying to touch the utmost darkness with the right hand while putting his left foot out of the absolute clarity.

A ciência e a verdade

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O caráter científico  do mundo contemporâneo tem uma sólida base de apoio em René Descartes 1596/1650, filósofo, físico e matemático francês, que com seu nome grava a ferro e fogo o conceito popular “cartesiano” em toda a sua posteridade européia e com o passar dos anos na sociedade global.

O cartesianismo ocupou com naturalidade a mente do homem pós-renascentista que desejava explicações para sua existência, que fossem além do obscurantismo católico. Esta guinada brusca, da sociedade em 1500 anos de história ocidental, provoca um afastamento e enfraquecimento gradual da arte, da poesia e da espiritualidade do núcleo de nossa humanidade. Nosso devir passa a ser refém da ciência que arrasta um enorme e pesado lastro, necessário ao seu desenvolvimento, chamado consumo.

Subjugados por essa equação autofágica, hoje acreditamos apenas nos números frios, pesquisas, testes de laboratório, tratados científicos, especialistas, aquilo que podemos comprovar através da química, física e estatística.

Estamos distantes das nossas emoções e sentimentos, do respeito e da compreensão elevados pelo senso de alteridade, estamos distantes da poesia que diz, conforme Octavio Paz: “meu eu és tu”.

Praticamos uma ética obliqua e obtusa, que busca “compartilhar” – palavra do momento – majoritariamente o que temos de pior.

Portanto não entendo o espanto da sociedade quando um médico (com seu jaleco branco) “compartilha” o sigilo médico e o prontuário de seu paciente, em função de um ódio cego. Me escapa a lógica da indignação quando um advogado (em seu terno irretocável) leva para dentro de uma prisão armas ou drogas para seu cliente. Por que se irritar quando um policial (fardado) libera um marginal em flagrante em troca de parte do crime?

Estamos em uma encruzilhada. O que até pouco tempo parecia romanticamente vantagens competitivas ou estratégias em uma selva capitalista, hoje atinge a todos nós mortalmente à luz do dia, na contra mão, dentro de nossas casas, nos hospitais, nos tribunais, nas igrejas, nas escolas de nossos filhos.

Compreenderemos rapidamente que a ciência apenas já não nos basta para convivermos melhor com o mundo. Não serão suficientes as estatísticas que nos indicam o melhor caminho para termos mais saúde. Não importará sermos atendidos por profissionais dentro de seus uniformes assépticos, se não encontrarmos no seu interior mais civilidade.

A força gravitacional científica que nos atrai inelutavelmente neste momento específico da nossa história, deve perder sua centralidade absoluta a partir da tomada de consciência da nefasta hegemonia. Somos mais do que ciência. Somos aparência e essência, imanência e transcendência.

SCIENCE AND TRUTH

The scientific character of the contemporary world finds a solid base in René Descartes (1596- 1650). This French philosopher, physicist, and mathematician had his name fire engraved in the popular concept of “cartesian,” which went throughout the European posterity and further, in the global society.

Cartesianism has occupied with naturality the post-renaissance men’s mind, that wanted his existence explained beyond the Catholic obscurantism. This sudden turn of society, in 1500 years of Western history, provoked a gradual distancing and weakening in the arts, in poetry and in spirituality in our humanity’s core. Our future then became the hostage of a science that drags with it an enormous and heavy trail called “consumption,” which is necessary for its development.

Subjugated by this self-consuming equation, today we believe only in cold numbers, research, laboratory tests, scientific data, specialists, in things we can prove through chemistry, physics, statistics.

We are far from our feelings and emotions, far from respect and understanding raised by the sense of otherness. We are far from the poem that says, according to Octavio Paz, “you are my self.”

We practice an oblique and obtuse ethic that seeks to “share” — the word of the moment — mostly the worst in us.

Therefore I don’t understand society’s astonishment when a doctor (in his white coat) “shares” the medical confidentiality and his patient’s medical records because of a blind hatred. It escapes me the logic of indignation when a lawyer (in his impeccable suit) brings guns or drugs to his client in the prison. Why should we get angry when a police officer (wearing his uniform) releases a delinquent caught in flagrant in exchange for a part of the crime?

We are at a crossroads. What, not long ago, romantically seemed to be competitive advantages or strategies in a capitalist jungle, today strikes all of us dead in daylight, into oncoming traffic, inside our houses, in the hospitals, in the courts, in the churches, in our children’s schools.

We will quickly understand that science only is not enough anymore for us to live a better life with the world. The statistics that shows us the best way to get healthier won’t be enough. It won’t matter

if we are attended on by professionals in their aseptic uniforms if we can’t find civility in them anymore.

The gravitational force of science that inevitably attracts us in this specific moment in our history must lose its absolute centrality by the time we raise our consciousness about the harmful hegemony. We are more than science. We are appearance and essence, immanence and transcendence.

O que nos olha

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A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O Grande Vidro. Exposição de Marcel Duchamp no Centro George Pompidou, Paris 2014.

Toda a sombra ao se espalhar sobre a terra encobre as imperfeições, alivia o calor, gera a umidade, protege o infante, ou mesmo esconde o crime.

O plano opaco, rugoso e tenso recebia, em outras eras, a tinta andrógina da pintura, não como ofício da sombra, mas como desejo da carne e da pele. O corpo visual se formava na fusão das cores, vernizes, solventes. A massa pastosa deitada sobre o algodão recebia sobre si camadas sobrepostas, veladas, reveladas, justapostas, fixadas através da oxidação permanente no plano branco e passional. Como o chão da floresta recebe suas folhas outonais ou a morte animal e em idêntica perspectiva aguarda a mãe que abre seu ventre para acolher os restos do filho devorado pelo pai, para quem sabe um dia, fazê-lo renascer.

Este foi o destino da pintura até o Grande Vidro de Duchamp.

“A inelutável modalidade do visível” de J. Joyce sofre uma dobra ou dobramento nesta obra de Marcel Duchamp, construída entre 1912 e 1923. Para muito além dos “moldes málicos”, dos “moedores de chocolate”, dos “vasos comunicantes”, a obra ganha o vazio, o espaço aberto, a visão total espaço circundante. O trabalho de Duchamp não está mais no espaço, ele agora é o espaço, ele insere a luz, o reflexo, a presença, a ausência.

Lembrando de George Didi-Huberman, frente ao Grande Vidro, o que vemos é exatamente o que nos olha.

 

What stares at us

 

In sparing itself over the earth, every shadow covers imperfections, relieves the heat, creates humidity, protects the child, or even hides the crime.

In other eras, the opaque, wrinkled, and tense plan used to receive the androgynous tint of the painting, not as a trade of the shadow, but as a desire of the flesh. The visual body used to be formed in the fusion of colors, polish, solvent. The viscous mass laid over the cotton used to receive overlapped layers ― hidden, revealed, juxtaposed, fixed through the permanent oxidation on the blank and passionate plan. Like the forest ground receives its autumn leaves and the animal death, and in identical perspective awaits the mother that opens up her womb to host the remains of the son devoured by the father, so that maybe someday she will make him be born again.

This was the destiny of painting until Duchamp’s “Large Glass”.

James Joyce’s “Ineluctable Modality Of the Visible” suffers a bending in this work of Marcel Duchamp, built between 1912 and 1923. Way beyond the “malic molds”, the “chocolate grinders”, and the “communicating vases”, the work gains the void, the open space, the total vision of the surrounding area. Duchamp’s work isn’t in space anymore: now it is the space, it inserts the light, the reflection, the presence, the absence.

And to remember George Didi-Huberman, in the face of The Large Glass what we see is exactly what stares at us.

Van Gogh foi incompreendido no século XIX, emocionou o século XX e continua emocionando o século XXI. Diferentemente de vários artistas modernos ou mesmo contemporâneos, que apenas nos impactam, Vincent nos emociona, nos toca no fundo da alma. Viajamos em sua companhia, seja através de suas imagens, seja através de suas cartas, seja através de sua história. Muito já foi escrito sobre sua obra e vida.

Antonin Artaud nos da um dos melhores caminhos para entrarmos neste universo obscuro, embora nele reine a luz, em seu livro “Van Gogh suicidado pela sociedade” http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/1401397.pdf

O holandês não construiu sua obra pictórica apenas com pincéis e tintas e telas…Sua vida estava ali. Totalmente ali. Parece pouco ou simples. Mas poucos de nós conseguem dar esse testemunho. Entrega total. Os milhões de turistas que visitam o Museu Van Gogh em Amsterdam, com toda sua tecnologia e arquitetura maravilhosamente bem executada, não encontram o pintor. Mas quando você para diante de uma de suas telas e frui….imediatamente você é contaminado, envolvido, emocionado por sua história impregnada nas cores e formas.

O filme “Loving Vincent” que esta para ser lançado e apresento aqui o seu making off é mais uma tentativa de passar ao público este ato mágico realizado por Van Gogh entre 30/03/1853 e 29/07/1890. A direção é de Dorota Kobiela & Hugh Welchman. Resta conferir se estará a altura do legado de Vincent. Se você estiver interessado em saber mais sobre esta imensa produção confira em http://lovingvincent.com

 

Why does Van Gogh still thrill us?

Van Gogh was misunderstood in the XIX century, rendered the XX century emotional, and keeps on provoking people’s emotions in the XXI century. In a different way than various modern, even contemporeneans artists, that only cause an impact on us, Vincent brings us strong emotions; he touches the depths of our souls. We travel in his company – be that through his images or through his letters or history. A lot has been written on his work and life.

Antonin Artaud gives us one of the greatest paths for us to enter this obscure universe, even though the light reigns on it, in his book “Van Gogh ― The Man Suicided by Society”: http://static.recantodasletras.com.br/arquivos/1401397.pdf.

The Dutchman hasn’t constructed his pictorial work with just brushes, paint, and canvas… All his life was there. It was completely there. It seems like it’s too little or too simple. But few of us can actually give this testimony. Total surrender. The millions of tourists that visit the Van Gogh Museum in Amsterdam, with all its technology and incredibly well-executed architecture… They don’t find the painter there. But when you stop before one of his paintings and just seize the experience… Then you are immediately contaminated, involved, deep-touched by his history found impregnated in the colors and in the forms.

The movie “Loving Vincent”, that is to be released soon (and here I present its making of), is yet another try to pass to the public this magical act made by Van Gogh between March 03, 1853 and July 29, 1890. Dorota Kobiela & Hugh Welchman are the directors. It remains to be known if it is good enough in relation to Vincent’s legacy. If you are interested in knowing more about this giant production, check it out here: http://www.lovingvincent.com.

Por que Van Gogh ainda nos emociona?

A palavra e a imagem

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Retrato de George Sand

O museu nacional Eugène Delacroix, administrado pelo Louvre, está localizado em uma das residências do pintor francês em Paris no 6, rue de Furstenberg, ao lado do Boulevard Saint-Germain. Quem já o visitou, caminhou por seu jardim intimista, pelos cômodos do apartamento do artista, ou mesmo em seu estúdio anexo à casa principal, percebe a atmosfera respirada no século XIX. O museu é impecavelmente, simples e envolvente.

No ano passado o museu adquiriu um retrato feito por Delacroix da escritora George Sand em 1834. Para comemorar esta aquisição foi preparada um exposição que resgata esta grande amizade entre o pintor e a escritora que compartilhavam Shakespeare e Byron, além de admirar a força da pintura espanhola.

O museu ganha uma imensa força com essa aquisição, trazendo para seu interior silencioso mais uma elo de Delacroix com o mundo, seja ele romântico nas notas de Chopin, seja na boemia de Paris urbana, seja no campo idílico de George Sand, seja nas poderosas imagens marroquinas que invadiram o território de sua pintura. A angustia de sua arte e a força de suas pinceladas estão na base do expressionismo.

The word and the image

The national museum Eugène Delacroix, managed by the Louvre, is located in one of French painter’s houses in Paris, number 6, Rue de Furstenberg, next to the Boulevard Saint-Germain. The atmosphere of the XIX century is easily noticed by people that have visited the place, walked through its intimate garden, through the rooms of the artist’s apartment, or even entered into his studio attached to the principal house. The museum is impeccably simple and enchanting.

Last year, the museum acquired a portrait of the writer George Sand, painted by Delacroix in 1834. To celebrate the acquisition, they prepared an exposition that covers the great friendship between the painter and the writer. They shared a passion for Shakespeare and Byron and were both fond of the strength of Spanish painting.

With this acquisition, the museum gains an immense strength, bringing to its silent interior one more link between Delacroix and the world ― be that romantic in Chopin’ s notes, be that in the bohemia of urban Paris, or in the idyllic field of George Sand, or even in the powerful Morrocan images that invaded the domain of his painting. The angst of his art and the strength of his brush strokes are in the very basis of Expressionism.