A tirania das nossas crenças

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Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem; podem infringir-lhes os desmentidos mais constantes sem enfraquecer-las, e um aluvião de desgraças ou de doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, não a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento do seu médico.

Marcel Proust

Ao longo da nossa história recente, nós homens e mulheres, fomos nos agrupando em aldeias, vilas, criando fronteiras, estruturando cidades, até chegarmos ao formato do estado-nação onde vivemos e compartilhamos nosso tempo e espaço. O estado portanto proporciona dois alicerces institucionais para a coexistência dos seus cidadãos: Um sistema valorativo e normativo e um sistema social organizado formalmente. Esta é a estrutura “escrita, constituída, formalizada” de uma sociedade que busca melhorar constantemente estas mesmas leis, normas e valores em benefício da ideia de civilidade, adaptando estas definições às novas exigências da sociedade.

Em alguns países estes sistemas significam apenas uma roupagem, a maquiagem e os adereços, já em outros eles são o real esqueleto de sustentação do estado-nação. A diferença está no tamanho da distância entre a letra colocada sobre o papel constitucional, que falamos acima, e o drama das vidas que se desenrolam em um fluxo de ação ininterrupta.

Portanto, muito além do estado oficial, constitucional, o estado da “letra fria”, há um corpo mais orgânico, visceral e mesmo cultural construído lentamente em seus hábitos, crenças e estética, que poderá estar mais próximo ou não das diretrizes institucionais do seu país. De uma coisa temos certeza: nossos hábitos, crenças e estética, como sociedade, são imagens infinitamente mais antigas e arraigadas do que as definições teóricas que estabelecem nossas instituições.

Em que momento histórico nasceu a crença dos franceses na liberdade, seu amor pela literatura e por sua língua, seu culto à gastronomia e à arte? Quando inicia a obsessão dos norte americanos pela democracia, como foi construído no seio da sua sociedade a crença no poder do capital e das armas? Como os japoneses desenvolveram sua relação com a ordem, o respeito ao semelhante e a natureza, de onde vem o rigor de sua estética leve e absolutamente impecável? Quando nasce, entre os povos de vários países do oriente médio, a crença em um estado absolutamente religioso, e refratário a toda ideia de respeito às diferenças?

Obviamente todas as sociedades destes e outros países são muito mais complexas, contraditórias, contendo forças antagônicas que internamente as revolucionam constantemente. Mas a forte existência desta identidade, em muitos casos, tem a capacidade de unir, mobilizar e mesmo combater para atingir um mesmo objetivo. Esta identidade, mesmo que seja apenas de uma maioria, é fundamental para que passos importantes sejam dados, para que transformações sociais e econômicas aconteçam, para que se conquiste mais justiça e igualdade.

Quais são as crenças dos brasileiros? Por que não encontramos nossa identidade? A justificativa de que somos um país jovem beira o ridículo, a diferença entre a revolução americana e o movimento de independência brasileira é menos de cinquenta anos. A grande depressão de 1930 e a posterior primeira grande guerra mundial, finalizada em 1945, praticamente balizaram o mundo em sua destruição, precariedade e necessidade de reconstrução. Ficamos fora da articulação internacional de soerguimento.

Em quais forças acreditam os brasileiros como possíveis elementos de transformação interna da sociedade? Conseguiríamos encontrar alguns alinhamentos, econômicos, sociais, ambientais ou mesmo culturais, que favoreçam um projeto para o país?

Quando nos confrontamos com outras experiências ao redor do mundo percebemos as imensas dificuldades para viabilizar grandes transformações sociais, que em muitos casos impõe a dor e o sofrimento. Mas também encontramos avanços importantes que são inclusivos e conseguem compartilhar o pouco que nossa humanidade já conquistou de positivo.

O Brasil tem perdido até mesmo o pouco da sua identidade construída, mesmo que confusa, em função de tamanha fragilidade sociocultural. A marca, sobre a pele brasileira, do “homem cordial” no sentido negativo que o conceito estabelece, não pode mais se perpetuar, arrastando consigo para o abismo a distinção entre o público e o privado, permitindo que a violência e a insegurança transformem-se em nossas bandeiras, eliminando da nossa juventude o senso crítico que sempre oxigenou o futuro.

Quando teremos coragem e qual o caminho para iniciarmos esse projeto que deve dar o primeiro passo? Esta é uma pergunta essencial, que deve ser respondida, se realmente desejamos crer em algo que nos conduza a um caminho melhor no futuro. Que a tirania de nossa crença futura nos faça melhores do que somos hoje.

 

The tyranny of our beliefs

Facts do not find their way into the world in which our beliefs reside; they did not produce our beliefs, they do not destroy them; they may inflict on them the most constant refutations without weakening them, and an avalanche of afflictions or ailments succeeding one another without interruption in a family will not make it doubt the goodness of its God or the talent of its doctor.

– Marcel Proust

By the course of our recent history, men and women, we were grouping in villages, creating frontiers, building towns, until we get to the format of the nation-state where we live and share our time and space. Therefore the state provides two institutional foundations for the coexistence of its citizens: an evaluative and normative system, and a formally organized social system. This is the structure “written, composed, formalized” of a society that seeks for constant improvement of these laws, norms, and values in benefit of the idea of civility, adapting these definitions to the new demands of society.

In some countries, those systems mean only an appearance, the makeup, and the adornments; on the other hand, in other countries, they are the nation-state’s real support skeleton. The difference is in the size of the distance between the letter put on the constitutional paper, of which we spoke above, and the drama of the lives that develop in a flux of continuous action.

Therefore, further away from the official, constitutional state, the “cold-worded” state, there is a more organic, visceral and even cultural body, slowly built in its habits, beliefs, and aesthetics, that could be nearer, or not, from the institutional guidelines of your country. One thing is for sure: as a society, our habits, beliefs, and aesthetics are infinitely older and rooted images than the theoretical definitions that establish our institutions.

In which historic moment has been born the French believe in liberty? Their love for literature and for their language, their cult to gastronomy and art? When does the obsession of North Americans for democracy begin? How the belief in money and gun power was built in the bosom of their society? How did the Japanese develop their relation with the order, the respect to their fellows and to nature? Where does the vigour of their soft and absolutely spotless aesthetic come from? In many peoples of various Middle East countries, when was produced the belief in an absolutely religious state, impervious to any idea of respect to the differences?

All societies of those and other countries are obviously much more complex and contradictory, containing antagonistic forces that internally revolutionize them constantly. But the strong existence of this identity, in many cases, is able to unite, to mobilize, and even to combat to achieve a common objective. This identity, even if it’s only about a majority, is fundamental for important steps to be made, for social and economic transformations to happen, for more liberty and freedom to be conquered.

What are the beliefs of Brazilians? Why don’t we find our identity? The justificative that we are a young country is nearly ridiculous; the difference between the American Revolution and the movement of Brazilian Independence is less than fifty years. The Great Depression of 1930 and the posterior World War I, ended in 1945, practically defined the world in its destruction, precariousness, and the need for rebuilding. We were out of the international articulation for regeneration.

In which forces do the Brazilians believe as possible elements for society’s internal transformation? Could we find any economic, social, environmental, or even cultural alignments that favour a project for this country?

When confronted with other experiences through the world, we perceive the immense difficulties to make viable great social transformations, that, in many cases, impose pain and suffering. But we also find important improvements that are inclusive and allowed to share the few positive things that our humanity has already conquered.

Brazil has been losing even the little identity already built, even though confuse, because of the great sociocultural fragility. On our Brazilian skin, the mark of the “cordial man”, in the negative sense of the concept, can’t perpetuate anymore, dragging with itself the distinction between the public and the private to the abyss, allowing that violence and insecurity become our flags, cutting off our youth the critical sense that has always oxygenate the future.

When will we have the courage, and what’s the way for we to start this project that must take the first step? This is an essential question that must be answered if we really want to believe in something that conducts us to a better path in the future. Let the tyranny of our future belief make us better than we are today.