Pacotes, operações e o futuro…

 

 

pacote e operaçãoChristo and Jeanne Claude: PS1 – Man Ray: O Enigma de Isidore Ducasse – Rembrandt: A Lição de Anatomia do Doutor Tulp e O Boi Descarnado.

 

Já fomos o país dos planos que no fundo eram pacotes econômicos. Isto para não ir muito mais longe no passado de um país que foi descoberto há 500 anos, porém tem bem menos tempo de história que valha a pena relatar. Voltando aos pacotes. Lembram? Plano/Pacote do Sarney ou Cruzado, do Funaro, Bresser, Plano Verão, Collor 1, Collor 2, Real. Naquele momento recente da história brasileira dizia-se que nossos problemas eram decorrentes da inflação. Problemas econômicos, brasileiros sem controle financeiro, sem experiência monetária/democrática, dizia-se que os brasileiros engatinhavam no grande salão do capitalismo moderno.

Passados 30 anos viramos o país das operações. Retiramos o país das páginas econômicas e o colocamos nas páginas policiais. Operação Zelotes, Vórtex, Dupla Face, Cosa Nostra, Lava Jato, apenas para ficar em algumas, até porque você não vai acreditar no número de operações desencadeadas no Brasil desde 2003…são mais de três mil operações apenas da Polícia Federal. Neste momento atual da história brasileira diz-se que nossos problemas são decorrentes da corrupção. Propina em todos os lugares, falta seriedade, falta comprometimento, diz-se que os brasileiros engatinham no grande salão da democracia moderna.

O país vive intoxicado com estes discursos hegemônicos, obtusos, e fáceis, que desejam o Brasil preservado como o “país do futuro”. Estes discursos buscam um inimigo, em alguns momentos a Inflação e a economia, em outros a corrupção e a política. Estamos há anos discutindo aquilo que não formará o país. Não temos uma agenda para o Brasil. Toda a nossa energia se concentra, deliberadamente, em um discurso autofágico e destruidor.

Não devemos discutir inflação e corrupção? Sim é claro. Mas estes não podem ser os principais focos de uma nação.

O que aconteceria se todas as televisões, rádios, jornais, redes sociais, blogs, etc. destinassem o mesmo tempo – que já dedicaram no passado à inflação e à economia, somado ao tempo que hoje dedicam à corrupção e à má política – dedicando-se por exemplo à educação financeira, ao empreendedorismo, à ética, a importância da política pública na vida das pessoas, o respeito ao outro que pode ser um familiar, amigo, cliente ou mesmo desconhecido.

Infelizmente o Brasil tem seguido o conselho de Giuseppe di Lampedusa: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Temos mudado apenas na forma. Nosso foco (ou inimigo comum) deixou de ser a inflação e passou a ser a corrupção. Mas o conteúdo permanece o mesmo: os brasileiros tem matado um aos outros na ordem de 150 homicídios diários. Brasileiros matando brasileiros em alguns casos por conta de um celular ou R$ 50,00.

Quando teremos um país onde aquilo que está escrito em uma embalagem, realmente esteja dentro da própria? Quando poderemos sair à noite de casa sem medo de não retornar? Quando abriremos um negócio que signifique realmente um futuro melhor e não mais um pesadelo todos os dias e noites?

Muito provavelmente, quando valorizarmos os “pacotes” de Christo, os embrulhos de Man Ray, ou mesmo aprendermos mais com as operações pictóricas de Rembrandt, investindo em uma cultura de construção, retirando as pessoas da miséria espiritual que as imobiliza, sairemos gradualmente do atoleiro em que nos encontramos. Assim demonstra a experiência em outros países.

 

O Brasil e suas carnes

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Trouxas ensanguentadas de Artur Barrios

Nas décadas de 60 e 70, no auge da repressão que aconteceu durante os governos dos presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, o Brasil já havia se encontrado com suas próprias carnes. O artista Artur Barrios espalhava “Trouxas ensanguentadas” pelas ruas e terrenos baldios indicando o caminho dos crimes e o cheiro do sangue da ditadura.

A obra de Barrios segue atualíssima. Nos dias de hoje qualquer artista, sem tanta originalidade é claro, que empacotasse ossos, carnes e vísceras, largando-os nas ruas de qualquer cidade brasileira estaria indicando ainda o caminho dos crimes praticados no Brasil, não mais através da repressão militar, mas sem dúvida, crimes praticados no grande esgoto a céu aberto em que se transformou nosso país.

Está estabelecida uma tamanha promiscuidade entre o público e o privado capaz de destruir completamente a linha que deveria resguardar as mais básicas regras de relação entre estes dois campos.

O que é de todos e deve ser respeitado e usufruído por todos (isso é público, escrevo porque entendo que ainda não temos isso bem claro), o que é apenas meu e serve tão somente ao meu uso (isso sim é privado) e posso fazer uso como desejar.

Embora, nos dias atuais, mesmo no campo da iniciativa privada o respeito às atitudes e ao outro (consumidor/cliente) deve vir antes de tudo. Por que as autoridades e empresas brasileiras não aprendem com experiências já vividas? O presidente mundial da Toyota veio a público pedir perdão por um grande recall necessário em seus veículos. Ele se comprometeu a corrigir e melhorar seus processos. Os exemplos são muitos. A Volkswagen pediu desculpas ao mundo por utilizar um software que driblava o sistema de controle de emissão de poluentes. O CEO do Uber pediu desculpas públicas, recentemente, por tratar mal um dos seus colaboradores em uma de suas viagem utilizando seu próprio serviço.

No Brasil não. Governo e empresários culpam a polícia (pasmem) por abusos na divulgação dos fatos. E mesmo no caso de haver abuso na forma, antes houve um crime e contra a saúde pública. Esse é o conteúdo significativo.

Por que não pedem desculpas por permitir (governo) uma falha na fiscalização, com provas de corrupção de funcionários públicos, além de prenderem (empresários) pessoas da iniciativa privada que ultrapassaram e muito a linha que divide o interesse público na proteção da saúde dos consumidores, dos interesses de ganho privado.

Infelizmente as atitudes tanto públicas quanto privadas me levam a crer que ainda teremos muita carne abandonada em “Trouxas ensanguentadas” aparecendo nas ruas do Brasil. Corrupção e crime não se combate jogando para baixo do tapete. Estes cadáveres acabam aparecendo em algum momento, trazidos a tona por algum Artur Barrios em atividade.

Os brasileiros cansados de tantas “Trouxas”, esperando que tenhamos chegado ao fundo do poço e que esta seja a última, talvez devam se conformar com a realidade de um poço mais fundo do que imaginamos.

TVs espiãs vigiaram 11 milhões de famílias nos EUA

A tecnologia que nos serve como poderosa ferramenta, pode em muitos casos nos utilizar como inocentes úteis….sempre estaremos utilizando e sempre seremos utilizados….não há como escapar…a menos que você esteja desplugado….

Venceslau.com.br

Por Bruno Garattoni

Há vários anos, as televisões da marca Vizio são as mais vendidas nos Estados Unidos. E com razão: aliam excelente qualidade de imagem (vivem ganhando prêmios da imprensa especializada) com preços incrivelmente baixos: compra-se uma Vizio gigantesca, de 65 polegadas e com resolução 4K, por apenas US$ 850 – metade do que custam as outras marcas.

Mas havia um porém: secretamente, as Vizio monitoravam tudo o que as pessoas assistiam. A televisão usava uma técnica chamada automated content recognition (ACR) para identificar o que estava exibindo – ela comparava as sequências de pixels a uma base de dados mantida pelo fabricante. Dessa forma, conseguia saber não apenas qual canal ou programa de tv estava sendo visto, mas também rastreava outras fontes de conteúdo, como DVDs, Blu-ray e vídeos da internet.

Essas informações eram registradas num dossiê, que identificava detalhadamente os hábitos de cada família, e oferecidas a anunciantes…

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Max para ver

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Foto com intervenção de Max Moura

 

A paixão final de Max Moura pela fotografia talvez tenha dominado as fronteiras de seu território em função de um certo cansaço do fazer. O desenho, a pintura e a gravura são ofícios que exigem além do mental, também o físico, a fricção com a matéria resistente. Passar uma vida arrancando imagens de suportes brancos esgota nossos tendões e também as sinapses.

O enfrentamento angustiante com o branco do papel, da tela ou mesmo da pedra, metal e madeira se torna cada dia mais difícil, porque nosso grau de exigência cresce, ou pelo menos deveria. Buscamos aquilo que Paul Klee chamava: tornar visível.  Em algum momento de uma vida, como a de Max, totalmente voltada para a imagem, aqueles que trabalharam, como ele, dura e longamente revelando imagens a partir de toda a forma de matéria, se encontram diante de um simples prazer: ver. Isso porque aprenderam a olhar e ver.

A relação extrema e intensa com a imagem permite realizar aquilo que já sabemos: ver é imaginar.

Aqui lembro do cinema de Pier Paolo Pasolini em Decameron, quando na cena final o artista que pinta o retábulo, sonha com sua própria obra e ao acordar se pergunta: para que pintar, quando é tão melhor sonhar?

O que é sonhar senão ver com a alma, ainda que prescindindo de um corpo óptico, embora uma alma ainda manchada de carne e sangue?

Max viu suas imagens finais através de uma lente, enxergava seu mundo particular e o congelava, recortando, adicionando ou subtraindo os elementos de sua alma. Gravava sobre as imagens naturais outras imagens que apenas seus olhos captavam.

Quando ganhei esta foto lhe disse que escreveria sobre ela e cheguei a nomear os três personagens do primeiro plano: O perfumista, o letrado e o inquieto. Os três personagens desta foto que Max me deu durante sua exposição. Mas Max insistia comigo que não me fixasse apenas no primeiro plano mas principalmente ao fundo onde o seu desenho já era anunciador.

Não escrevi o texto após sua morte, talvez um dia o faça.

*O pintor, desenhista e gravador Max Moura nasceu e faleceu em Florianópolis em 1949/2009.